sexta-feira, 9 de julho de 2021

Minhas quatro vidas

 Antes de mais nada, os encontros FIRE seguem a todo vapor nessa vida nômade. Nas últimas semanas tive o prazer de almoçar com o Soul e sua família (www.mundosoul.com.br) e tomar um chopp com Ivan Tonon (https://www.youtube.com/channel/UCwY0gQ1Dl1Y1qYsldkLoc_Q). Estou em Santa Catarina no momento e em breve estarei no RS; quem quiser bater um papo, deixe um comentário ou mande e-mail.

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Ouvindo o excelente podcast Rational Reminder, do excelente analista financeiro canadense Ben Felix, conheci Don Ezra, atuário com grandes contribuições ao setor enquanto ativo e, agora aposentado, contribuindo com a sociedade ao gerar reflexões sobre como lidar com a aposentadoria, tanto financeira quanto psicologicamente, com uma abordagem que, numa primeira análise, me pareceu muito interessante. Seu livro mais recente se chama “Life Two” (Vida Dois, em tradução livre) e um “livro auxiliar” ao mesmo é disponibilizado gratuitamente neste link.


Ainda estou caminhando na leitura acima, porém já me fez refletir sobre a quantidade de “vidas” que temos ao longo de nossa existência. O autor divide a existência dele em duas vidas: enquanto trabalhador e enquanto aposentado. Eu gostaria de ir muito mais além.


Na minha (curta) existência de 35 anos sinto que vivo a minha quarta vida. Chamo por “vida” o que entendia como tal a cada era.


A primeira vida foi a infância, diria que dos 0 aos 13 anos. Aquela transformação no corpo, desenvolvimento e habilidades básicas, a transição de sair só do núcleo familiar para agregar amigos à vida, entender que a escola era para ensinar utilidades para a vida. Vive-se de forma pura, sem a consciência do que a vida pode se tornar e as coisas simples, no geral, são o bastante para produzir grande felicidade.


A segunda vida foi dos 14 aos 25 anos, no meu caso. A vida era dividida em duas: estudar e se divertir. A meta dos estudos era conseguir uma boa qualificação estudantil para formar um bom pré-currículo profissional: tirar notas boas, entrar numa boa faculdade, fazer cursos de extensão e pós-graduação – tudo ainda dentro daquele formato obrigatório do jovem millenial. No lado pessoal, as metas eram namorar o máximo, se divertir, fabricar boas histórias e viajar na medida que o escasso dinheiro permitia.


Conheço muitas pessoas que ficam estagnadas no que foi a minha segunda vida. Sujeitos de 30 a 40 anos (ou mais) que são eternos estudantes, emendam cursos e mais cursos, jamais construindo uma carreira ou imagem profissional sólidas; outros, de mesma idade, cuja meta é saber “a boa do fds” e conhecer toda semana alguém diferente; muitos em ambas as situações. E assim vão vivendo, vários sob a aba dos pais/parentes, sem construírem relacionamentos amorosos sólidos, nem patrimônio material ou imaterial (contribuição à sociedade ou algo parecido).


Minha terceira vida foi dos 26 aos 33 anos, a mais curta de todas até agora. Já tendo atingido uma relativa estabilidade profissional, a meta neste âmbito era crescer orgânica e continuamente, buscando aprendizados autodidatas principalmente para fins profissionais práticos e focando muito mais em construir uma imagem do que um currículo – afinal, acho que menos de 1% dos clientes que já tive questionaram qual universidade cursei ou se tinha algum diploma de curso específico, eles queriam resultados e bom atendimento, acima de tudo. Na esfera pessoal, começava a enxergar que o mundo não é feito de números e excessos, e sim de qualidade e intensidade nos relacionamentos; o número de amigos e mulheres foi reduzindo, ficando cada vez mais quem realmente importa, até que amigos ficaram poucos e mulher somente uma e permanente (“mulheres” no plural me refiro a frequência de trocas, não necessariamente em simultaneidade, que fique claro).


Neste ponto eu presumo que grande parte das pessoas fique estagnada até a próxima vida (aposentadoria e/ou terceira idade). A vida profissional passa a ser uma eterna busca por mais e mais. O supervisor quer virar coordenador, depois gerente, depois superintendente, depois diretor… sempre buscando um salário e status maior. Há quem nem se importe com o cargo, somente com ganhar mais e mais para sustentar uma aparência social ou acumular dinheiro por acumular, sem um objetivo específico, sempre sob o manto da desculpa de “conforto”. A pessoa com grana pra 10 apartamentos não tem mais conforto da com grana pra 4. Na parte pessoal, alguns desanimam rapidamente de um relacionamento estável, ora mantendo o mesmo para fins sociais (especialmente quando casado no civil e religioso e, mais ainda, quando já tem filhos), ora terminando relacionamentos e buscando incessantemente a outra metade da laranja, sem saber que a perseverança em renovar a parceria é o principal ingrediente pra evitar que sua atual metade da laranja fique azeda.


Aos 34 anos, faz pouco tempo, sinto que iniciei minha quarta vida. O plano profissional foi substituído pela independência financeira, esta nunca entendida como abundância de dinheiro, mas sempre como a satisfação com o que o já tem e um planejamento sólido – sujeito à revisões conforme o mundo gira – para perpetuar o patrimônio. A vida pessoal consiste em passar 24h com esposa e filha, aproveitando os momentos bons, aprendendo com os ruins e buscando qualidade de tempo com os demais familiares (muitos deles pouco lembrados pelas metas das vidas anteriores) para que se tenha o que realmente importa. Ainda, aprender um novo pensamento filosófico ou abordagem de saúde soa infinitamente mais útil que saber a última novidade da minha área profissional (fundamental para quem se encontra na vida anterior).


Olhando em retrospectiva, cada vida parece ter sido, de fato, uma vida passada, um aprendizado que dificilmente terá retorno sob qualquer aspecto. Há um vídeo do Mario Cortella (desculpe, não salvei o link) que ele expõe que muitos casamentos terminam porque um dos cônjuges afirma ao outro: “você não é mais o mesmo”. É muito interessante quando finalmente parei para perceber que nem eu nem você somos mais os mesmos que fomos anos atrás; já não somos os mesmos que fomos ontem, mesmo que em uma micromedida, agindo o fator tempo como os juros compostos modificando nossa essência.


O mais curioso da minha vida atual é que pareço habitar num mundo paralelo a quase todos os conhecidos, ainda vivendo majoritariamente na minha vida anterior. O paralelismo também é digno perceber junto àqueles que tem vidas absolutamente distintas por razões circunstanciais de localização e renda (díspares para muito menos ou muito mais). O fator principal e que muito me orgulho, posto que fruto da minha construção ao longo dos anos, é que hoje faço praticamente tudo que quero e aprendi a não querer o que seria impossível ou de grande sacrifício.


Que a vida atual seja perene e que eu tenha sabedoria para me enquadrar nas próximas que virão.


E você, parou para contabilizar quantas vidas já viveu, em qual se encontra hoje e qual deverá ser a próxima?


Abraço

11 comentários:

  1. É aposente...
    Acho que estou caminhando para minha terceira vida, digo caminhando, porque ainda não saí totalmente da segundo (basicamente por motivos financeiros).
    A vida nômade vejo também como uma fase e creio que para quem se aventura nesse formato de vida (que já são minoria), não dure muito.
    Viagens longas no sentido de extensão ou duração também cansam. Já passei por 8 Estados do Brasil e o Distrito Federal e não sinto o menor tesão em repetir algumas dessas viagens, porém quero conhecer lugares novos, talvez até fazer uma viagem mais longa e demorada passando por vários lugares, espero fazer isso logo, antes da idade servir de motivo para não fazer...
    Mas não me vejo numa longa fase nômade. Isso cansa também e pode ser enjoativo.

    Com relação ao pessoa que vira estudante profissional (sem resultados práticos) ou as pessoas que não desenvolvem relacionamentos firmes vou por partes.
    Estudantes profissionais/concurseiros profissionais: Separo esse pessoal em dois grupos básicos, estudantes que realmente gostam de estudar (minoria), gostam de aprender coisas novas e estar intelectualmente ativos mesmo sem retorno financeiro. E pessoas que se "escondem" em cursos ou concursos muitas vezes sem sentido para si mesmo para emular uma pseudo atividade e um pseudo desenvolvimento pessoal e profissional que sem planejamento e auto conhecimento dificilmente trará resultados satisfatórios.

    Relacionamentos: Na minha opinião é uma minoria dos relacionamentos que realmente são bem sucedidos e isso por vários motivos que não vou comentar para não me alongar muito. Mas dentro da nossa realidade o quadro que você mostrou é totalmente "normal" dentro do contexto atual.
    No passado haviam também muitas relações fracassadas, mas boa parte das pessoas empurrava pra debaixo do tapete e "foda-se".

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    1. Oi Anon, bacana seu relato. Essa vida nômade é cansativa mesmo, não há dúvidas. Minha esposa já está começando a diminuir o ritmo e pode ser que nossa previsão inicial de 2 anos diminua, mas estamos deixando o vento soprar.

      No meu texto eu me referi aos que se "escondem", como você disse. Muitos com síndrome de Peter Pan, vivendo na Terra do Nunca para evitarem as responsabilidades do mundo real.
      No âmbito pessoal, eu concordo contigo que esse normal sempre existiu, só que meu sentimento é que as pessoas se esforçam cada vez menos para lutar pela manutenção de um relacionamento. A fluidez trazida pelas mídias sociais acaba incentivando a partir pra próxima (muito mais fácil) a se aprofundar numa vida conjugal que não caminha bem.

      Abraço

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  2. Fala Diegão, excelente meu caro, gostei do texto. Estamos sempre mudando e avançando, se ficarmos "do jeito que vc era antes" ia ser tão monótono, tão "lhee" que nem sei como pessoas gostam de manter o mesmo padrãozinho de vida por muito tempo, não digo padrão padrão, e sim a mesma rotina, mesmos cursos, mesmo cargo, mesmas pessoas, mesmos papos, a vida tem que fluir rs.

    Vou pegar a recomendação melhor desse livro com vc depois.

    Abçs

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    1. Tava viajando aí quando escrevi, mas não deixa de ser minha sensação! rs
      Abraço

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  3. Boa noite Diego! Legal o post... É interessante como nossos interesses e planos mudam com o passar de cada uma das vidas, sendo que muitas vezes o que era mais importante pra nós deixa de ter qualquer importância na "outra vida". É importante sempre nos lembrarmos de aproveitar cada uma delas e não focar apenas na última (aposentadoria).

    Grande abraço!

    VVI -vvibr.blogspot.com
    Grande abraço!

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    1. Valeu, VVI! É isso que você disse: focar só na possível última vida (aposentadoria) atrapalha curtir a jornada.
      Abração

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  4. Olá Diego, boa tarde

    Respondendo a sua pergunta, eu acredito que vivi três vidas e no momento estou ensaiando a quarta vida. Um dia desses minha irmã me questionou que eu tinha mudado, logo respondi que sim e como mudei. Não vejo problema nenhum em mudar ao longo da vida: as prioridades mudam, o corpo muda e os pensamentos mudam muito mais...

    Do lado corporativo cheguei num bom patamar e confesso que daria para subir mais, porém haveria efeitos colaterais indesejados relacionados a família e amizades. Mantenho a dedicação e afinco nas minhas atividades e trato todos os recursos da empresa de forma profissional (tenho ações da empresa e quero que ela prospere para dar dividendos. rs).

    Obrigado pelas recomendações de leitura, vou ler mais sobre esse tema.

    Abraços,

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    1. Que legal, VAR! Os mais próximos com frequência questionam nossas mudanças sem se dar conta que todos mudamos. Torço para que seus dividendos tenham longas vidas!!! rs
      Abraço

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  5. Então velho, a única coisa que sou contra a aposentadoria precoce é parar de trabalhar.

    O meu trabalho me permite fazer nada ou trabalhar produtivamente, os dias que passo não fazendo nada de útil, me sinto um merda no final do dia.

    Quando trabalho com foco, afinco e produtividade, sinto-me muito bem e cansado para dormir.

    Em relação a relacionamento, oque eu digo é o seguinte, não caia nesses papos que a pessoa mudou ou coisa do tipo, se baseie pela BIBLIA.

    Oque a Biblia diz em relação a relacionamento? Case, mantenha se casado até morrer, só separe em caso de adultério.

    O problema que hoje as pessoas ficaram sem nenhum "Manual" para levar a vida e fazem oque o coração manda, e com isso colhem consequências como por exemplo: O fim de uma familia.

    Só quem tem pais separados, ou é casado com homem/mulher que tem filho, sabe o inferno que é.

    Então eu acho que o único caminho para um relacionamento duradouro é Oração+Palavra de Deus.

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    1. Fala Peão!
      Quanto ao trabalho, acho excelente se ele te faz bem. Também tive e ainda tenho dias de grande satisfação ao ver o resultado de meu trabalho, só que hoje tenho momentos de satisfação ainda maiores relacionados a situações não ligadas ao trabalho.

      Relacionamentos sempre são polêmicos de discutir, mesmo assim gosto de abordar. Considero a Bíblia um excelente norte/guia para relacionamentos, independentemente da fé cristã, todavia, não entendo que seja o único manual. O fato é que rede social alguma é guia para relacionamento.

      Abração

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  6. Bela reflexão. Eu também já tive várias vidas, várias realidades. Me chamou a atenção como vc é novo. Chegou na IF com 34, é isso ?! O lance de compra e venda de imóveis foi sua maior alavanca né ? Sucesso aí, curta sua nova vida ! abs

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