domingo, 4 de abril de 2021

Vivendo no raso

 


Sentado em frente ao médico, você descreve uma incômoda dor física que vem sofrendo há algumas semanas. O médico olha pra você e diz: “só um minuto, vou responder à mensagem de outro paciente”. Após manusear o celular, o médico te avalia por dois minutos e pede: “por favor, aguarde alguns minutos que irei falar com o representante farmacêutico que me aguarda na recepção”. Furioso, você termina a consulta prometendo nunca mais voltar a esse médico, já que claramente ele não prestou a devida atenção a seu problema.

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Em um recomendado curso de especialização profissional, no qual você pagou milhares de reais para aprender, o professor com frequência interrompe as aulas para responder a mensagens de WhatsApp. Quando perguntado para tirar alguma dúvida em sala de aula, o professor pede que a dúvida seja dirigida por e-mail ou no grupo de WhatsApp da turma. Você não pode deixar de notar que o professor dirige 90% de sua atenção à atraente aluna sentada à segunda fileira da sala.

Insatisfeito, você percebe que aquele aprendizado não está tão distante de um estudo online, possivelmente gratuito.

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Vivemos na era da informação. Abra agora seu WhatsApp, Telegram, YouTube, Twitter, Feedly ou outro app de comunicação. Possivelmente há dezenas de mensagens não lidas, vídeos não assistidos, posts não avaliados. Sempre haverá. É humanamente impossível, mesmo sendo aposentado, consumir todo o conteúdo que a Internet produz.


Até a geração dos anos 90, era extremamente comum ler um livro mais de uma vez, ouvir dezenas de vezes a mesma música ou disco, assistir ao mesmo filme (até mesmo no cinema). A produção do conteúdo era restrita e o público ávido por entretenimento. A Internet e os avanços tecnológicos possibilitaram que qualquer pessoa gravasse vídeos, músicas ou escrevesse textos e os disponibilizassem na rede.


Inegáveis são as vantagens do farto conteúdo disponível: gratuidade, democracia, variedade e, por vezes, qualidade. Há MUITO conteúdo gratuito e excelente na internet. O seu dia, todavia, só tem 24h e é preciso fazer escolhas. Até o início dos anos 2000, não precisávamos fazer tantas escolhas, diante da limitação do conteúdo disponível – acabávamos inevitavelmente vivendo a vida offline em algum momento.


Atualmente ficamos famintos por aprender, nos aprimorar, assistirmos ao próximo vídeo do sábio guru que nos brinda com gotas de sabedoria e reflexão sobre a vida, lermos sobre a estratégia de investimento do blogueiro/youtuber milionário. Temos a sensação de que a cada vídeo assistido, a cada post lido, nos tornamos seres humanos melhores e mais aptos, o que nem sempre é verdade.


Consumir conteúdo online é excelente, o problema reside na INTENSIDADE desse consumo. Minha experiência própria: passei semanas escutando no excelente podcast “Resumo Cast” resumos debatidos de livros sobre autoajuda e empreendedorismo. Às vezes escutava 3 ou 4 resumos por dia, na velocidade 2x e, em poucas horas, parecia que tinha absorvido a nata de 4 best-sellers. Ledo engano. Até há pouco, assistia diversos vídeos no YouTube por dia e lia vários posts em blogs da internet (não sou fã de ler notícias da atualidade, mas poderia se aplicar).


O fato é que nosso conhecimento está cada vez mais RASO. Pare e reflita: é provável que você se lembre da mensagem de algum livro que leu há 15 ou 20 anos. A razão: você se aprofundou naquele livro; certamente o leu sem interrupções frequentes de um smartphone e, com certeza, não terminou dito livro e imediatamente começou a ler outro. Você aplicadamente concentrou esforços na leitura e, ao terminar, refletiu sobre ela. Quando foi a última vez que você assistiu a um interessante vídeo no YouTube, desligou seu celular e refletiu por alguns minutos sobre o mesmo? Pois é. Eu sei que você em seguida clicou noutro vídeo e, minutos após, esqueceu o que assistiu no tal vídeo interessante.


Por que você exige que seu médico e seu professor dediquem atenção integral a você (leu direito o início desse post?!) se você não faz consigo?


Tim Ferriss, no livro Trabalhe 4 Horas por Semana, defende ferozmente que paremos de perder tempo com notícias irrelevantes e entremos em uma dieta de informação. Com esse simples passo, teríamos tempo livre para realizar todas nossas metas e ainda curtir a vida de verdade. Aprendi isso em 2007 e orgulhosamente sei que, desde então, perdi poucas horas de minha vida lendo notícias efêmeras (inclusive sobre a pandemia corrente).


Agora reflito que necessito de uma “Dieta de Informação 2.0”. Acabei de me desinscrever de vários canais do Youtube que notava ser minoria o conteúdo que me atraía. Pretendo restringir a leitura de blogs e visualização de vídeos conforme a profundidade da reflexão que me apresentarem. Há pouco assisti a um vídeo que me instigou a escrever o presente artigo. Ele merecia que eu interrompesse a atividade de navegar na web e refletisse a respeito. Talvez, se eu seguisse navegando, três vídeos depois o conteúdo já teria se esvaído de minha mente.


Não sou mestre em nada e tampouco me julgo apto para lecionar. Deixo aqui somente uma reflexão para que, se você gostou do que ouviu/assistiu/leu, APROFUNDE e REFLITA sobre o conteúdo antes de iniciar nova atividade.


Em 528 A.C. (Antes de Cristo, não “Aposente Cedo”), após 49 dias de meditação e com a idade de 35 anos, Sidarta Gautama alcançou a iluminação espiritual. Será que teríamos um Buda se já existisse a Internet?


Abraço

18 comentários:

  1. Então, eu tenho aplicado uma técnica de estudo diferente e que estou vendo resultados.

    Antes, ficava sempre procurando o próximo guru, o próximo livro.. Agora estou focando em poucas pessoas em que realmente me inspiro e absorvendo, anotando ao máximo o conteúdo deles.

    Confesso que tenho aprendido de verdade agora.

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    1. vai fazer faculdade peão e para de estudar instagram!

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    2. Peão, já é uma boa estratégia limitar a fonte. Mais importante é diminuir a frequência no geral e não ficar bitolado só numa linha de pensamento.

      Essas notas que você toma são manuscritas ou em algum app?

      Abraço

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    3. sobre organização, o sistema do Tiozinho também é uma boa pedida (https://tiozinhozl.blogspot.com/2021/03/15-post-especial-quais-materiais-de.html)

      ando pensando em comprar uma mesa digitalizadora para poder produzir manuscritos diretamente em meio digital (https://www.amazon.com.br/Mesa-Digitalizadora-One-Wacom-CTL472/dp/B0785S55QQ), mas é só uma ideia

      abs!

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  2. É um grande paradoxo essa era em que vivemos: temos quase todo o conhecimento já produzido pela humanidade a alguns cliques de distância, mas ao mesmo tempo estamos mais rasos do que nunca no conhecimento, bem como você descreveu. Estamos a uma vídeo chamada de distância de qualquer pessoa em qualquer local do planeta, mas ao mesmo tempo é fácil perceber que as pessoas se sentem cada vez mais solitárias e deprimidas. É legal ter 50 sabores de pizza diferentes pra escolher no delivery, mas você pode perder tanto tempo sem saber qual pegar que a pizzaria acaba fechando e parando de aceitar os pedidos.

    Abraços!
    https://engenheirotardio.blogspot.com/

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    1. ET, por aí mesmo. Dá pra ir além no tema: a multiplicidade de opções gera um desgaste emocional grande e o desejo interminável de querer mais. Centenas de pessoas no Tinder e fotos das gostosonas no Instagram te estimulam a não querer ter um relacionamento fixo; as dezenas de restaurantes no iFood incentivam sua preguiça de não cozinhar; por aí vai.
      Foquei na parte intelectual nesse post porque nesta área que eu venho vivendo no raso há mais de 1 ano e só agora me dei conta - e eu não era assim.

      Abração

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    2. acho q uma boa maneira de desenvolver a parte intelectual é seguir uma Plano de Leitura cronológico

      gosto muito desse plano (https://entreclassicos.wordpress.com/plano-de-leitura/).

      Inclusive estou seguindo aos poucos e com alguns desvios (https://scantsa.blogspot.com/2019/06/lista-plano-de-leitura-cronologico.html)

      mas pra quem só quer uma lista de livros interessantes, tem o livro "ferramentas de titas" do Tim ferris, que tem uma lista bem diversificada; a qual abordo parcialmente nesse post (https://scantsa.blogspot.com/2020/10/lista-livros-de-ferramentas-dos-titas.html)

      para quem tem interesse no valor do trabalho intelectual profundo no mundo atual, sugiro o livro "Deep Work"/trabalho focado (https://www.amazon.com.br/Trabalho-Focado-Sucesso-Mundo-Distra%C3%ADdo/dp/8550802328)

      para combater o paradoxo da escolha, sugiro o livro "Chega de Desperdício! (2010)" cujo capítulo sobre excesso de escolhas resumi nesse post (https://scantsa.blogspot.com/2020/03/livro-chega-de-desperdicio-2010john_12.html)

      abs!

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    3. Valeu pelas dicas, Scant! Você tem posts muito bacanas e é um verdadeiro "blog à moda antiga", expondo seus pensamentos no geral. Gosto muito.
      Já li o Ferramentas dos Titãs e é um verdadeiro tesouro.

      Muito bacana esse plano cronológico de leitura... estou já cogitando em implementar. Só não adiantar terminar de ler 50 páginas e assistir 20 vídeos no Youtubem em seguida, ao invés de assimilar o que leu. rs

      Abraço e obrigado pelas valiosas contribuições!

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  3. Fala meu caro, já fiz esse detox digital e gostei muito, já deixei programado o próximo. Depois de me saturar com notícias no inicio dos meus investimentos eu vi que isso não valia por onde, depois li taleb e tive o vies da confirmação que me faltava, peguei meu instagram e faceboook e deletei, youtube desloguei (pra parar de aparecer meus canais inscritos, isto é, se eu entrasse no youtube eu teria que pesquisar e não só clicar) e no wpp não mudou muito pq já sou enxuto. Cara, foi muito bom e pretendo fazer isso sempre, sei lá, a cada 3 meses.

    Excelente reflexão. Sobre os livros, adoro eles pq é uma transferência de conhecimento devagar, gradual, demora, vc não acaba um livro de 300 páginas em 30 min como num vídeo, vc demora dias, mais de horas e horas seguidas lendo, isso trás um conhecimento mais sólido.

    Excelente post!

    Abçs

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    1. Legal a estratégia de programar detox, também é algo que já estou cogitando. Nunca tinha pensado que, pelo tempo de vida que um livro demanda, especialmente os profundos, a fixação de seus ensinamentos é maior que de 100 vídeos. Realmente interessante e faz sentido.

      Abração

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  4. Selecionar melhor o que vai ler e gastar seu tempo, seria uma atitude, digamos minimalista.

    gosto dessa frase.

    'O conceito de minimalismo não é que vc não tem nada, mas tem tudo do que precisa"

    obrigado pelo texto

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    1. Olá Kspov, agradeço o complemento. Seletividade é uma característica do minimalismo, tenho de concordar. Há, porém, quem seja seletivo para algumas coisas e esbanjador em outras.
      Vamos focar no nosso bem mais precioso: o tempo.
      Abraço

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  5. Aposente Cedo,

    Me identifiquei muito com o seu post.

    Nosso tempo é limitado, por isso precisamos filtrar muito o que realmente merece o nosso tempo e atenção.

    Também tentei o resumo de livros e senti a mesma insatisfação que você. Se no início parece que vale a pena, logo percebemos que não é bem assim.

    "Acabei de me desinscrever de vários canais do Youtube que notava ser minoria o conteúdo que me atraía."
    Estou fazendo o mesmo. Precisamos filtrar o que realmente importa.

    Precisamos estar atentos à impermanência da vida, pois o que gostamos ontem pode não fazer mais tanto sentido hoje.

    Excelente reflexão. Boa para ser lida naqueles momentos em que percebemos que a navegação na internet está se tornando um naufrágio na realidade. Já vou deixar aqui nos Favoritos!

    Abraços,
    Simplicidade e Harmonia

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    1. Olá Rosana, vindo de ti esse comentário, fiquei me sentindo! rs
      Seus textos já me causaram bastante impacto também e fico feliz que esse post tenha lhe aprimorado em qualquer aspecto.

      Concordo com sua ponderação de que nosso interesse de ontem nem sempre subsistirá no presente ou futuro.

      Abraço

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  6. Reflexão boa.
    Nunca fui adepto de mídias sociais (Instagram, Facebook e etc), no máximo assisto vídeos no Youtube. Mas no início do ano passado eu tive uma "crise" de conhecimento, reparei que nos últimos anos estava lendo e aprendendo muito pouco comparado com minha juventude. Com isso comecei a montar uma lista de leitura dos livros que já tinha, dando foco para os livros mais clássicos, e também entrei em um clube de leitura mais voltado para liberalismo, conservadorismo e empreendedorismo, que são temas que não tinha base mas gostaria de aprender. Além disso, comecei a montar uma lista de desejos de livros que compartilho com minha esposa, para caso ela queira me presentear =]
    A lista de leitura que chamo de Backlog é bem diversificada e não possuo ordem de leitura, sorteio aleatoriamente o livro que irei ler, este ano por exemplo li: A Sabedoria dos Estoicos, Tesão de Viver, A tragédia de Otelo e As Aventuras de Alice nos Países das Maravilhas. No momento estou lendo Homo Deus.
    Posso dizer que a leitura começou a abrir meu horizontes novamente, muito bom.
    Forte Abraço.

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    1. Olá DAF, antes de mais nada, bem-vindo à finansfera! Sua ideia é muito boa mesmo. É tão fãcil ficarmos horas presos à tela do celular que abrir um livro (ou mesmo Kindle) parece "trabalhoso e chato".
      Por coincidência terminei de ler Alice semana passada e fiquei um pouco decepcionado. Tantas menções a ele pelos "filósofos mosqueteiros" e, em minha leitura, encontrei raras passagens de sabedoria e, mesmo refletindo sobre o contexto/mensagem geral do livro, não encontrei tantas razões para o estrondoso sucesso. Faz pensar fora da caixa e pode ter sido um grande diferencial à época da composição, mas considero muitos livros acima dele.

      Abraço

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  7. Fala AC!
    Há algum tempo eu decidi evitar o consumo de conteúdo "temporal" (notícias, por exemplo) e focar mais em conteúdos atemporais... E olha que não percebi nenhum malefício de "ficar desinformado", já que a maioria desse tipo de informação é totalmente irrelevante pra minha vida...
    Mas ultimamente eu tenho percebido que só esse "filtro" não está sendo suficiente. Tô precisando de uma nova dieta de informação, porque não estou dando conta de tudo que o celular me sugere!!

    Você já viu o documentário "O dilema das redes"?
    Esses algoritmos não só são projetados para prender nossa atenção pelo maior tempo possível, como também te "alimentam" apenas com aquilo que confirma as suas ideias correntes (te tornando cada vez mais cego a outros pontos de vista)...
    Excelente reflexão AC!
    Um abraço.

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    1. Vi sim, esse documentário é bem legal mesmo, me ajudou a ficar mais consciente sobre o algoritmo, todavia, a consciência não é suficiente pra gente se livrar de um vício.
      Abração

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