segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Ter filhos não é obrigação

 


Ter filhos dá um trabalho danado. São muitas noites mal dormidas, preocupações com alimentação adequada, vacinas, estímulos ao desenvolvimento, saúde no geral, entretenimento ininterrupto (até aprenderem a brincar sozinhos), diminuição de intimidade do casal, oitiva de palpites das avós/tias/gente que teve filho antes. Ter filhos é muito bom, mas é pra quem quer assumir RESPONSABILIDADES.


Sempre falo que só existem duas coisas irreversíveis na vida: a morte e ter filhos. Casamentos podem ser desfeitos, empregos trocados, imóveis vendidos, até membros do corpo substituídos por próteses. Você não tem como se desfazer de filhos e a tendência natural é que os acompanhe até sua própria morte.


Sempre quis ter filhos e me preparei para isso em diversos sentidos. Apesar de nunca estarmos 100% prontos, o tempo vai ajudando a enxergar o grau da responsabilidade que eles imputam aos pais.


Eu sou um grande privilegiado: desde antes da concepção, já passo quase a totalidade do tempo próximo a meu filho. Adepto do home office em tempo integral há pouco mais de 4 anos, conto nos dedos das mãos o número de vezes que fiquei mais de 24h sem estar fisicamente perto, seja por trabalho ou por outras questões familiares.


Minha esposa não trabalha desde pouco antes da gravidez e ela pode afirmar que nunca passou 24h distante da prole.


Sem babá ou familiar perto para dar uma folga ao trabalho de pais, sentimos o peso da responsabilidade da criação. É um grande prazer e privilégio estarmos sempre todos juntos, porém não é fácil.


Procriar foi uma escolha consciente e, apesar de ser bem mais difícil que o imaginado, foi uma opção excelente, mas não é para todos.


Acho extremamente evoluído quem simplesmente afirma: não quero ter filhos.


Havia e ainda há uma pressão social (e religiosa, mas não vou entrar no tema) absurda em procriar. Lembro de minha mãe se referindo a qualquer mulher que não tinha filhos ou afirmava não querer ter que era “possivelmente mal amada”. A pressão vem dos amigos, perguntando quando vão fabricar amiguinhos para brincar com os filhos deles, vem da família, perguntando quando você dará netos/sobrinhos.


Filhos são uma dádiva, recomendo para quem quer ter, mas, quem não quer, não recomendo. A vida dá sim para ser completa e feliz mesmo sem tê-los. Menos renúncias precisarão ser feitas, mais liberdade – em muitos sentidos – você terá.


Essa breve reflexão é porque conheço muitas pessoas vivendo no piloto automático, o que inclui ter filhos em um momento pré-determinado.


Tive uma namorada que parecia ter a vida definida desde os 15 anos de idade: fazer vestibular, entrar numa universidade pública, fazer mestrado, doutorado, casar, se consolidar na carreira, ter filho, aguardar X anos, ter outro filho… A conheci próximo de formar e acompanhei até o final do mestrado, quando nossas vidas deixaram de sincronizar. Há um tempo ela terminou o doutorado, casou e sua carreira parece estar indo muito bem. Há pouco soube que ela está grávida. Tudo conforme o planejado há décadas.


Tenho amigos que seguiram caminho semelhante. Cumpriram suas promessas próprias de “curtir a vida” até os 30 anos, pelo menos.

Um deles deixou de casar com uma namorada que até hoje fala que era o amor da vida porque era muito novo. Casou com uma namorada de pouco mais de um ano porque tinha “chegado a idade de casar”.


Outro teve um casamento de cinema, daquele sonhado há tempos, com a esposa que não quer ter filhos, mas ele quer e disse que “a hora chegou” – a esposa segue sem querer ter filhos, porém ele confia que “nela despertará o instinto materno depois que o filho nascer”.


Outro, depois dos passos A, B, C (formar, fazer pós, passar num concurso, casar), adotou um cachorro como “prévia” do filho que pretende fabricar em breve. O cachorro (filhotinho) roía móveis e fazia xixi fora do local adequado, algo absolutamente normal e esperado de um filhote em um ambiente novo. Em menos de um mês o camarada colocou o doguinho de novo para a adoção e felizmente o peludo arrumou um novo lar. Em conversa recente, esse amigo disse que esse ano pretende procriar.


Outro parece que nunca deixou de estar solteiro, se é que me entendem, apesar de estar casado há mais de 5 anos, mas que “irá sossegar depois que o boneco chegar”.


Com todos eles tenho intimidade suficiente para ter tido uma conversa nos termos acima: “Cara, você não precisa ter filho. Seja feliz aí, cuidando da sua vida, com sua(s) mulher(es), seu trabalho que te consome. Ter filho pra ver no final de semana e só pegar a parte boa não faz muito sentido. Ignore essa pressão dos ‘futuros vovôs’, tá na cara que sua vida tá legal pra caramba assim”. Deixei todos reflexivos, todavia creio que seguirão seus pilotos automáticos.


Fica aqui a reflexão para os leitores que ainda não são papais ou mamães: pensem e repensem se querem ser. É bom demais, só reflitam bem se realmente é o que vocês querem ou se é o que querem pra vocês.


Abraço

18 comentários:

  1. otimo post
    sigo sem filhos e sem vontade de fazer (minha mulher idem)

    abs!

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    1. Valeu, Scant. Isso aí, não quer ter, não tenha. Simples assim e não vai ser outra pessoa que vai te convencer.
      Abraço

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  2. Não tenho filhos, mas sem dúvida essa é uma das maiores responsabilidade que alguém pode ter.
    A cobrança para outras pessoas terem filhos é uma das coisas mais sem sentido que existem e ainda é relativamente comum, embora já tenha sido muito mais em gerações anteriores.
    Muitas pessoas que passam de determinada idade sem filhos sinda são de certa forma cobradas ou indagadas do porque disso.

    Pra mim a questão principal não são as pessoas que não querem ter filhos não te-los. A questão principal é quem não quer ser pai ou mãe ter filhos.
    Tá muito comum a terceirização da criação dos filhos. As pessoas tem filhos e quem cuida são avós ou creches, são pais e mães que trabalham, mas que muitas vezes também são ausentes ou acomodados em saber que alguém está fazendo o papel de pai ou mão pra eles.
    Quem paga são os filhos, a sociedade e até mesmo esses pais e mães que podem tomar consicência do tempo perdido e se arrepender quando esses filhos forem adolescentes ou mesmo adultos.
    O tempo não volta e há coisas que não poderão mais ser vividas.

    O primeiro passo e ter muita certeza de ter encontrado a pessoa certa para se reproduzir (o que nem sempre é tarefa fácil).
    Deve se ter disposições a doar tempo para a criação dos filhos e abrir mão de algumas coias para executar essa tarefa de forma satisfatória. Caso contrário não acho que ter filhos seja a decisão mais acertada.

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    1. Concordo contigo, Anon, e ainda vou além na polêmica: a mãe ideal pra seu filho nem sempre será a esposa ideal. Eu considero que tive sorte, tenho uma ótima esposa que é uma ótima mãe, mas, olhando em retrospecto, tive namoradas que seriam ótimas mães e péssimas esposas (e vice-versa). Vejo também esposas de amigos que são ruins no aspecto conjugal, porém ótimas na maternidade, assim como o contrário.
      A vida é complexa e cabe a cada um refletir bem antes de tomar decisões tão importantes como a de ter filhos (e tudo começa com a proteção pra não vir um sem planejar).

      Abraço

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  3. Escolher por não ter filhos ou poucos filhos é a garantia de uma casa vazia e solitária na velhice.. Nada melhor que uma casa cheia de filhos, netos, primos e etc..

    Uma pena que muitas pessoas perderam um pouco senso disso e substituem as pessoas por vicios eletronicos como video game, celular e etc.

    Por isso que muitos "gostam" da solidão, porque estão viciadas em alguma coisa, só esperando o dia da morte.. totalmente inconscientes.

    Enfim, tenho opinião que filho é propósito de Deus e as pessoas tem botados seus interesses primeiro na hora de ter filhos, estão sendo egoístas!

    Se você parar para analisar, ninguém tem filho se for botar na calculadora.

    Mas filho não é para dar lucro mesmo não, é para você deixar seres humanos melhores para esse mundo..

    Enfim, assunto complexo denovo que necessita de ser estudado de perto..

    Italo Marsili e Icaro de Carvalho podem ajudar.

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    1. E o grande número de pessoas que fazem parte da história do cristianismo que não tiveram filhos?
      Todo mundo que não tem filhos é viciado em alguma coisa?
      E quem tem filhos, não é viciado em nada?
      Boa parte dos idosos em asilos tiveram filhos, é bom que se diga também. Tem também os idosos que vivem com filhos e netos se sustentando em suas abas, vivendo parcialmente de suas parcas aposentadorias.

      Concordo que sem filhos as chances de ter probelmas relacionados a solidão na velhice aumentam, acho que isso é quase inegável, porém com o aumento gradativo da população idosa no Brasil, que serão um percentual considerável nas próximas décadas, o que não vai faltar é idoso e isso pode contribuir para uma maior facilidade e abundância de socialização dos idosos com seus pares etários.
      Mas como disse, sei que os riscos de problemas com solidão são maiores.

      Ter filhos apenas pensando em você mesmo no seu futuro envelhecimento não tem uma dose de egoísmo?
      E as pessoas que tem filhos mas não tem nenhum compromisso com "deixar seres humanos melhores no mundo"?

      A forma mais sábia e responsável de se ter filhos é quando se tem maturidade para tal e sobretudo o desejo de ser um bom pai ou uma boa mãe.

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    2. Peão, linda ideia na teoria - a pratica nunca se sabe
      pode dar certo ou errado - são todos apenas seres humanos

      filhos viciados em drogas ou poços de virtude
      mulher companheira maravilhosa ou puta que trepa com seu primo

      não há garantias na vida real de uma vida de margarina
      só acho engraçado essa sua visão romântica da vida

      abs!

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    3. Scant, o Peão vive atrás de um roteiro pra vida dele, é fácil perceber isso pelos comentários e posts, ele se baseia demais em fatores externos e autores, palestrantes e afins para a formação de suas opiniões.

      Falta ao Peão um pouco de maturidade e reflexão. Faltam mais opiniões e conceitos prórpios e não apenas a repetição de conteúdo de terceiros.
      Talvez o tempo o auxilie nisso, desde que ele não esteja fechado para o que a vida tem a ensinar.

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    4. Peão, sua visão é cristã e respeito. Reflexões milenares têm muito a ensinar, porém o mundo mudou muito e cada um precisa se adaptar da melhor forma que encontrar - e isso pode significar não ter filhos.
      A responsabilidade real é bem maior do que parece e o trabalho de uma criação digna também.

      O espaço aqui estará sempre aberto para opiniões diferentes e gosto muito de lê-las.

      Abraço

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  4. O duro de se expor e comentar eh levar criticas duras, igual levou o Peao... kkk Nunca quis ter filhos... e veio logo gêmeos na primeira "cacetada"... Hoje penso que foi a melhor coisa da minha vida... NADA...NADA... NADA supera o amor familiar... nem viagens, nem dinheiro, nem bem materiais... tudo isso é COMPLEMENTO. Precisamos de tudo isso, mais uma família, para sermos completos. Mas com certeza tudo eh momento e estado de espirito. Precisa ter uma situação confortável de vida e certa maturidade pra se ter filhos hj em dia... do contrario, é só dor de cabeça.

    Pra quem fala tanto de investimentos... posso assegurar que NÃO TER FILHOS É O PIOR INVESTIMENTO... DA VIDA!

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    1. Como você mesmo disse, é importante ter maturidade pra ter filhos. E querer assumir de fato a paternidade.
      Sua opinião é equilibrada não há porque ter medo de críticas.

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    2. OBS: É importante pontuar que quem tem filhos aqui, ainda os tem crianças e é uma dinãminca totalmente diferente de quando se tem filhos adolescentes ou adultos.

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    3. Oi Gustavo, eu tenho filho, foi bem pensado e acho que foi a melhor decisão da minha vida. Talvez ainda tenha mais um, algo em discussão com a Sra. AC. É um amor indescritível, algo muito superior ao amor romântico ou ao amor de filho pra mãe - o de mãe/pai pra filho é insuperável.

      Como tudo que boto aqui, não é uma recomendação de "investimento"; somente é algo que deve ser muito bem pensado e não deve ser pautado na pressão social, baseando-me em experiência própria.

      Abraço e muita saúde para seus gêmeos!

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  5. Excelente reflexão, AC.

    Eu particularmente nunca consegui me imaginar sendo pai. Não há algo dentro de mim 100% determinado que diga "não quero ter filhos!", mas apenas nunca consegui conceber a ideia de ser pai. Talvez no meu caso seja algo tão intrínseco que eu nem paro pra pensar sobre o assunto.

    Mas não tenho dúvidas que ter filhos deve ser uma das maiores responsabilidades da vida.

    Abraço!
    https://engenheirotardio.blogspot.com/

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    1. Tem horas que o instinto desperta de verdade. Se você encontrar a pessoa certa, pode ser que apareça.
      Abração

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  6. Na minha opinião, não querer ter filhos é sinal de egoísmo. A vida não é só diversão, a vida é doação. Mas depende da realidade de cada um. Se a pessoa não tem condições emocionais ou financeiras, aí pode ser que seja melhor não ter.

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    1. Aportador, é uma escolha pessoal! Conheço um casal que não teve filhos por opção, mas fundaram uma ONG de amparo a animais, tiram do bolso 5k por mês pra sustentar mais de 40 bichos abandonados, organizam eventos para doação, investem dinheiro e tempo pra caramba no assunto. Certamente não fazem isso por diversão e chamá-los de egoístas seria difícil, sob qualquer ponto de vista.
      Não tem fórmula pronta ou resposta certa pra reflexão do post.
      Abraço

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  7. Gostei muito da sua reflexão: é direta e equilibrada. Pensando em FIRE, ter filhos é uma escolha muito complicada. De um lado, você dificulta a antecipação da aposentadoria devido aos enormes gastos, mas, por outro, acaba encontrando uma das melhores razões para não trabalhar: conviver e criar vínculos mais robustos com os filhos. O fato é que as pessoas estão deixando de ter filhos e muitos têm no máximo 1. Sobre o tema da paternidade, recomendo o livro “Longe da Árvore” de Andrew Solomon.

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