terça-feira, 12 de outubro de 2021

Business, a arte de estar ocupado

 


“Business” em inglês significa negócio. É comum a pergunta “What business are you in?” para saber qual área ou profissão a pessoa trabalha.


Esses dias li um interessante desmembramento da palavra: business = busy + ness. Busy significa “ocupado”; “ness” é sufixo que tem a função de transformar adjetivos (qualidades) em substantivos abstratos (nomes que indicam qualidade, sentimento ou estado): - happiness (felicidade), - thankfulness (agradecimento), - attractiveness (atrativo).


Resolvi gerar minha própria tradução de business para “a arte de estar ocupado”. Afinal de contas, certamente já lhe perguntaram “o que você faz?”, pelo que você respondeu “sou …. (médico, engenheiro, artista, etc)”. Provavelmente você respondeu o que queriam saber, mas não literalmente à pergunta. Tenho certeza que você faz muito mais do que trabalhar.


Nossa sociedade desenvolveu a necessidade de estar busy através do trabalho, o que acho uma ótima possibilidade. Uma mente vazia tende a criar problemas imaginários, sofrer por antecipação, esperar coisas e eventos que nunca chegam, criar altas expectativas que levam a frustração, dentre outros males que podem até desencadear doenças mentais.


Confesso que já fui um Fire mais xiita, achando que a felicidade plena só vem com a libertação do trabalho (executando ele só quando desejado), porém hoje percebo que o trabalho pode ser uma motivação para muitos ou mesmo a realização de um desejo de se manter ocupado – e ainda ganhar dinheiro com essa ocupação.


Acabamos associando sempre o trabalho ao dinheiro, tanto que sempre adicionamos a palavra “voluntário” quando se trata de um trabalho não remunerado. Por vezes não nos damos conta que cuidar dos filhos, arrumar a casa, ajudar outras pessoas, auxiliar sua comunidade, viajar, etc, é um trabalho; dá pra ficar busy pra caramba só com uma das atividades mencionadas.


A busca pelo dinheiro, por si só, é um business. A galera FIRE consegue dar um passo à frente e, em algum momento, encerrar essa busca louca por grana, a famosa saída da corrida dos ratos. Creio que devamos pensar mais no nosso business após a IF.


Todos precisamos estar ocupados com alguma coisa, pareça ela importante ou não aos outros. Meus businesses no momento são viajar pelo Brasil, cuidar da minha família e finalizar meus trabalhos profissionais pendentes desde antes me decretar FIRE (confesso pegar uma coisinha ou outra nova, 99% com horizonte de término curto e bem definido). Acabo priorizando essas atividades nessa exata ordem, de forma que até peço desculpas aos leitores pela escassez de postagens e sumiço do Boteco Fire (que aliás os senhores Thiago Rezende e Gleison podem gravar sem minha presença sempre, deixe-se registrado). Para o ano que vem já tenho outros businesses em mente (um projeto voluntário na minha área de formação, um site de alcance nacional com foco em reciprocidade, focar mais em esportes, aumentar o nível de leitura, dentre outros).


E você, qual seu business?


Abraço

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Minha primeira vez

A primeira vez que eu transei não foi muito memorável, eu não sabia o que estava fazendo e foi bem rápida. Não é dessa primeira vez que escrevo.


Lembro bem da indescritível sensação da primeira vez que beijei minha atual esposa, da primeira vez que peguei minha filha no colo, da primeira vez que comi algumas comidas maravilhosas, da primeira vez que descobri o universo FIRE, do primeiro grande show que fui (Oasis + Guns ‘n Roses – Rock in Rio 2000), da primeira vez que subi num palco (AC já foi aspirante a rockstar, essa você não sabia), dentre outras agradáveis primeiras vezes difíceis de exprimir em palavras. Também não é dessas primeiras vezes que escrevo neste momento.


Meus dois avôs morreram em menos de 2 meses, primeiro vovó, depois vovô. Vovó já vinha com uma doença crônica há alguns anos, foi se debilitando e o dia chegou. Não era exatamente esperado, mas era “esperado”. Foi duro. Vovô, então viúvo, teve algumas primeiras vezes e dessas que quero falar.


Após 60 anos de convivência, vovô fez a primeira refeição sozinho. A primeira vez que entrou em casa e não viu a vovó, apesar de suas roupas no varal e no armário. A primeira vez que abriu a dispensa e viu as comidas dela. A primeira vez que teve de ir ao mercado e se virar, já que ele “não sabia escolher frutas e legumes direito” (palavras de vovó pra mim, antes de partir). A primeira vez que deitou na cama e ela pareceu grande demais. O primeiro aniversário sem vovó a ser a primeira a lhe dar parabéns e a última a dar “boa noite”. Foram dias difíceis, até que subitamente, veio a primeira vez que sentiu dores e teve de ir ao hospital sozinho. Lá ficou por um dia e teve uma parada cardio-respiratória. Não que ele fosse extremamente saudável, mas não era a hora dele. Não era.


Agora entro a primeira vez na casa deles, minha primeira vez sem vê-los naquele ambiente familiar, que ainda tem o cheiro deles e todas as coisas deles. Ainda tem comida na geladeira e roupas no varal. Parece também ser a primeira vez que meu pai se toca que virou órfão. Se o que sinto já não é legal, pra ele deve ser uma sensação nada bacana. Obs: tenho sorte de ter dois pais, um de nascença e um de criação.


Não sei muito o porquê, mas lembrei de um amigo que matou um cara aos 19 anos, atropelando ele numa via expressa em plena madrugada. Meu amigo não estava alcoolizado e o pedestre atravessava fora da faixa logo após uma curva, suspeitou-se até de suicídio. De toda forma, consigo imaginar todas as primeiras vezes que esse amigo teve. A primeira vez que foi dormir após matar alguém. A primeira vez que dirigiu após atropelar alguém. A primeira vez que voltou a sorrir após ceifar a vida de outra pessoa. Não deve ser fácil.


Essas primeiras vezes me fizeram mais uma vez perceber quão irrelevante é torcer pra um código na tela do seu computador ficar azul e subir, quão ridículo é defender políticos que a gente mal conhece e acha que sabe tudo da pessoa, quão inócuas são discussões sobre atualidades que em poucos dias deixam de ser atuais.


A vida segue e vamos agradecer pelo legado imaterial deixado pelos que se foram e pelo carinho daqueles que aqui ainda estão.


Que suas próximas primeiras vezes sejam do melhor tipo possível.


Beijos (pela primeira vez)

domingo, 12 de setembro de 2021

Criptos não são moedas



Veja se parece absurda a história abaixo:


Eu e uns amigos criamos um produto virtual chamado ‘glerk’. Fizemos uma página para vender glerks, um revolucionário produto que irá mudar a humanidade e a forma com que encaramos o dinheiro. Com glerk você não dependerá de governos, nem de sua mãe para ser feliz e acumular riqueza. O preço do glerk é dinâmico: quanto mais gente comprar glerks, mais caro ele vai ficando; quanto mais gente quiser vender os glerks que tem, o preço dele vai caindo. Nossa página de vendas é totalmente segura devido a uma nova tecnologia que só os sábios sabem explicar.

Não é possível comprar nada com glerks, somente trocar sua moeda local (real, dólar, etc) por glerks. Alguns poucos usuários de glerks também aceitam glerks como pagamento por serviços, infelizmente quase nenhum no Brasil POR ENQUANTO (apesar de já existir glerk há 13 anos).

(história inventada por mim)


Leia agora o conceito de moeda (Wikipedia):


Moeda é o meio pelo qual são efetuadas as transações monetárias. É todo ativo que constitua forma imediata de solver débitos, com aceitabilidade geral e disponibilidade imediata, e que confere ao seu titular um direito de saque sobre o produto social.


Glerk, bitcoin, ethereum ou qualquer cripto não é moeda. Você não consegue pegar sua cripto e comprar pão na padaria (por favor, sem mimimi em dizer que seu amigo que mora na California consegue comprar um latte machiatto na padoca high tech da rua dele) ou qualquer produto em praticamente qualquer país – antes você precisa converter sua cripto em uma verdadeira moeda para adquirir um bem ou solver seu débito.


Em resumo, criptos são PRODUTOS, e não moedas. Produtos fictícios, vale ressaltar.

Definição de ativo:

Pode ser classificado como ativo tudo o que pode ser convertido em dinheiro de alguma forma. Por exemplo, o dinheiro em banco é um ativo, o estoque da empresa pode ser vendido e virar dinheiro, então é um ativo, o carro da empresa pode ser vendido e virar dinheiro, então é um ativo.


Ok, produtos e dinheiro são ativos, então cripto moedas também são, porém estão longe de poder serem chamadas de moedas.


“Ah, mas eu posso converter reais em bitcoin no Brasil, depois converter bitcoins em dólares lá nos EUA”. Pode mesmo, da mesma forma que você pode ir ao Paraguai, converter dólares ou guaranis em um celular, cruzar a fronteira e vender o celular no Brasil, convertendo em reais. Pode comprar um produto no AliExpress e revender no Brasil, convertendo ele em reais. A única diferença é a volatilidade: enquanto o “produto cripto” varia muito diariamente, seu produto físico varia pela inflação (e eventual câmbio, se for importado).


Por que eu investiria em um produto fictício?


Dependo que alguém queira esse produto fictício para vendê-lo e convertê-lo em MOEDA de verdade.


“AC, você não entende: há uma escassez de critpo moeda” – escassez essa inventada e só daquela cripto. Digamos que sejam mineradas todas as bitcoins possíveis. O que impede de a “coletividade” deliberar sobre aumentar o número de bitcoins em circulação? Ou, mais fácil ainda, por que as pessoas iriam pagar cada vez mais caro numa então escassa bitcoin se é possível comprar centenas de produtos semelhantes?


Veja bem, pouco me importa falar aqui sobre segurança, blockchain, impenhorabilidade, “fora do alcance dos governos”, “criada pelo povo e para o povo” ou qualquer retórica a respeito de cripto moedas. Estou escrevendo sobre o que são no mundo real.


“Eeeeeeeee dor de corno! Nunca comprou, tá vendo uma galera multiplicar patrimônio com as criptos e tá aí difamando”. Nada disso, caro leitor. Também nunca comprei ações da Tesla, Apple, Banco Inter ou Magalu, nem por isso vou sair detonando esses ativos.


Não quero afirmar que criptos são pirâmides, só reflita comigo: se ninguém mais quiser comprar uma ação de uma empresa, um fundo imobiliário proprietário de um prédio, um título do Tesouro Nacional ou uma debênture de concessionária de energia, a empresa vai deixar de existir, o prédio vai sumir, o Governo vai acabar ou a concessionária vai falir? Negativo a todas as respostas.


A empresa seguirá existindo por seu valor contábil, o fundo continuará sendo proprietário do prédio e acruando seu aluguel, o Governo seguirá existindo e a concessionária precisará buscar outro meio de empréstimo. Você, o titular dos ativos, continuará sendo sócio de uma empresa que poderá distribuir lucros (sujeito à recompra de sua ação pela empresa), proprietário de uma fração de um prédio, titular dos juros que o Governo e a concessionária prometeram pagar (passíveis de ações judiciais e inúmeras medidas protetivas em caso de calote, mesmo que demoradas).


Agora, e se cada vez menos pessoas quiserem comprar bitcoin, Ethereum, etc? Se 70% dos investidores concluírem que nada se compra com cripto, a não ser dinheiro de verdade, e quiserem fazer a conversão? Você, que não vendeu, terá um produto fictício na tela do seu computador ou no seu pen drive e dependerá que novas pessoas ACREDITEM que aquele produto é uma boa opção de investimento.


Adoraria ler seus contra-argumentos nos comentários demonstrando que criptos não dependem exclusivamente de novos crentes para que seus preços subam e elas sigam existindo.


O fato é que o mundo é mais tecnológico a cada segundo e, enquanto criptos tiverem suas imagens vendidas – por proprietários - como o novo ouro; enquanto crentes no argumento comprarem essa imagem e as criptos; os produtos inventados perpetuarão. Talvez você morra sem que o número de descrentes supere o de crentes; talvez você resolva converter seus ativos inventados em qualquer moeda de verdade ainda com lucro (aliás, torço por isso, não quero que nenhum leitor daqui tenha prejuízo).


Há pouco tempo ruíram algumas pirâmides no RJ, dentre elas duas “empresas” que vendiam juros de 10% ao mês ao comprador/investidor, a primeira dizendo que aplicava o dinheiro em bitcoin; a segunda dizendo que sabia a fórmula mágica para ganhos em apostas esportivas. Se realmente davam tais destinos ao dinheiro, não sei, mas sem dúvida a segunda era bem mais honesta deixando claro que apostava a grana.


Abraço


Obs: apostei 5k há alguns meses num fundo de cripto (e vou deixar lá), assim como já joguei umas pratas fora em sites de poker, blackjack e jogos de futebol.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Perdi metade do meu patrimônio

 


Não foi fazendo trade, não foi em pirâmide financeira, apostas esportivas, nem em algum jeito de ficar rico rápido.


Foi minha mentalidade que mudou. Você já leu exaustivamente fora e dentro do círculo FIRE que tempo é dinheiro; trabalhamos dando nosso tempo em troca de dinheiro; etc. A aposentadoria “regular” e a aposentadoria privada (seja como produto bancário ou complemento do empregador) nada mais são do que a troca de reserva financeira por uma renda vitalícia (eu sei que na privada há opções de renda temporária, dentre outras, mas deixe eu simplificar).


Assim, a partir de agora em meu balanço mensal (privado) vou separar os ativos que comprei para gerar e usar a renda como “não-patrimônio” – e hoje eles representam em torno de 50% do total que tenho. Imóveis físicos alugados, FIIs e ações que comprei com foco em dividendos serão somente minha “renda”, minha “aposentadoria”, enquanto o resto dos ativos (no exterior, imóveis para ganho de capital e ativos de RF) serão o patrimônio propriamente dito.


Evidente que não vou largar às traças esse patrimônio que acabei de “perder” e converter somente em renda, até porque tenho a opção de modificá-lo para conseguir melhora da renda, seja reinvestindo parte dela na mesma classe, seja entendo que determinado ativo não faz mais sentido (ex: vendi um FOF de FII que tinha posição pequena e não vislumbrava razão de mantê-lo, usando a grana numa emissão underprice de outro FII com gestão melhor).


Já li fechamentos mensais de várias pessoas e há quem conte até a moeda do bolso da calça, enquanto há quem desconsidere como patrimônio o imóvel que mora, já que não pretende vender, tampouco gera renda.


Perdoe-me o sensacionalismo do título do post, porém eu optei por encarar, de agora em diante, que não “tenho” mais essa fatia de patrimônio, e sim uma renda mensal da “aposentadoria” (flutuante e com algum risco, ciente).


Por que tomei essa decisão?

1) Para lembrar sempre que, aos 34 anos, fiz a escolha de trabalhar cada vez menos, abdicando da construção de uma aposentadoria mais voluptuosa em prol de uma vida mais plena de outras coisas senão dinheiro; e


2) Porque todo ser humano tem metas. Olhar minha planilha de fechamento mensal com metade do valor que via até o mês anterior será um drive para não cair numa zona de conforto mental e buscar desenvolver projetos e aptidões que me tragam prazer e satisfação pessoal, além do meu próprio trabalho já costumeiro, o qual venho sendo cada vez mais seletivo.


Patrimônio é só um número na tela; renda é como você vive. Talvez você esteja pensando “por que então não transforma tudo em renda e vive com o dobro?”. Também já pensei nisso, claro, só que há várias razões para não fazer isso, dentre elas: poderia levar a uma vida de excessos e desperdícios, tornando bem fácil formar um círculo vicioso de consumo e despesas; utilizar toda a renda seria garantia de perda de poder de compra ao longo dos anos, o que levaria à derrocada de uma decisão FIRE; e, fazer o certo, reinvestir parte da renda… levaria a acumular patrimônio! Assim, fico mais confortável deixando, desde já, metade (agora o total) do patrimônio como um barco salva-vidas e área de manobra para o sempre incerto futuro.


ACHEI PÉSSIMA SUA IDEIA


Você tem todo direito de não concordar com minha abordagem. Nos EUA é bem comum a compra de uma annuity, instrumento que você dá uma quantia de dinheiro à seguradora e ela te dá uma aposentadoria vitalícia (pode ser temporária, deixe eu facilitar de novo) em troca, ou seja, você dá o dinheiro e eles de remuneram com previsibilidade pelo resto da vida, reajustada por um índice pré-determinado. Claro que seguradora e banco não costuma jogar pra perder, mas quem disse que, com esse dinheiro na mão, você necessária iria “ganhar”?


No Brasil isso também existe e é uma parte do meu portfolio, na forma de previdências privadas, atualmente divididas em 2 seguradoras e 3 fundos distintos. Se você tiver em mãos sua apólice da previdência, neste link oficial da SUSEP, pode simular, conforme a regra do plano, quanto será sua renda (a valor presente). Veja abaixo uma simulação minha:

 

Responda rápido: você prefere 500k na conta ou 2k/mês pro resto da vida?


Trazendo ao presente, se hoje eu tivesse 65 anos e 500k, poderia bater na porta da Icatu, entregar a grana e eles me darem R$ 1.992,18, corrigidos anualmente pelo IPCA (regra do plano), pro resto de minha vida, o que é equivalente a 0,40% ao mês sobre os 500k que entreguei. Esse tipo de decisão é irretratável. À primeira vista você pode pensar “hahaha, eu bato isso com consistência todos os meses”. Ok, não duvido, mas você quer passar até os últimos dias da sua vida estudando o mercado? Lendo relatório gerencial, balanço e decifrando sopa de letrinhas (p/vp, YoC, etc, etc)? Ou prefere receber um pouco menos, num grau de já lhe satisfaça as necessidades, e não se preocupar em investir?


Não estou dizendo que esse é o caminho certo, apenas abrindo os olhos do leitor para mais uma opção de aposentadoria, uma das mais passivas e garantidas, a meu ver. “Ah, mas a seguradora pode quebrar!”, pode, assim como o Governo pode dar calote nos títulos do Tesouro ou confiscar poupança; suas empresas da B3 falirem; suas criptos derreterem ou serem perdidas; suas LCI/LCA/CRI/CRA derem default… tudo tem sua dose de risco.


AC, VOCÊ FALOU QUE O PATRIMÔNIO NÃO CONTABILIZADO É DE FIIs E AÇÕES!


Sim, na presente data é isso. O patrimônio contabilizado engloba minhas previdências mencionadas porque nelas terei a opção de optar pela renda mensal vitalícia (ou temporária com valor maior conforme menor for o tempo de renda) ou SACAR o valor. Hoje os aportes são em 3 fundos que tem taxa de administração, como os de uma corretora comum, porém o IR sobre o ganho de capital é o menor do mercado não isento: 10% sobre o ganho para aportes com 10 anos ou mais. Significa que se eu desejar sacar o montante acumulado aos 65 anos, tudo que aportei até os 55 terá IR de 10% somente sobre os ganhos (obs: eu só aporto em VGBL com tributação regressiva). Pode ser que, nessa idade, eu pense e repense se saco a grana ou se opto pela renda vitalícia.


Hoje eu preferi utilizar no portfólio rentista somente FIIs (60%), imóveis físicos (30%) e ações (10%) por conta da desvantagem atuarial que teria em uma previdência (em função da idade) e por acreditar que estamos no início de um novo ciclo imobiliário que dentro de 10 a 15 anos pode ter seu novo auge (como ocorreu de 2011 a 2014). Atualmente, nos EUA, os preços dos imóveis já ultrapassam os da época da crise subprime (vide inúmeras notícias sobre isso na internet).


CONCLUSÃO


Diversificar segue como chave para uma noite tranquila de sono. Agora diversifico a forma de encarar renda e patrimônio.


Obs1: esses 50% do total de patrimônio (agora geradores de renda) equivalem a uma TSR/SWR de 3% ao ano (sobre o total do patrimônio “velho”). Nada mal se tratando somente de dividendos, sem nenhuma venda de ativos.


Obs2: levei cerca de 14 meses para migrar a carteira anterior para esse pedaço de portfólio previdenciário que gera renda adequada à minha necessidade (com alguma margem de folga). A rentabilidade nesse período de montagem foi de 4,28% (em 14 meses), considerando os dividendos recebidos.


Abraço

sábado, 21 de agosto de 2021

Pra que investir no exterior?

 


Antes de mais nada, deixo aqui minha recomendação ao curso “Como Investir no Exterior”, do Alex BP Milhão, autor do blog homônimo e do site Como Investir no Exterior, que quase sempre está conosco no Boteco Fire. Se você se sente inseguro de investir no exterior, seja por medo da língua, da regularização sobre o assunto ou da estratégia de investimentos, o curso dele irá esclarecer todas as dúvidas e, sem dúvidas, te dará suporte para sair da estaca zero ou se aprofundar no assunto, caso já invista lá fora. A qualidade do conteúdo gratuito (blog, podcast e Youtube) já é fantástica, então, mesmo sem ter assistido, posso atestar que seu dinheiro será bem investido no curso, cujo valor já é bastante honesto.

Obs: o link acima NÃO é afiliado, não tem desconto especial e eu não estou ganhando nada indicando. Estou apenas promovendo a educação financeira, um dos pilares desse blog.

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Vou aproveitar o jabá camarada acima e tocar no assunto, já que faz tempo que não abordo aqui. Quem navega pela finansfera sabe que o Sr. Resmungão IF 365 vem fazendo coro à proposição de que, mesmo que você nunca pretenda morar no exterior, deveria ter parte do patrimônio em moeda forte – e eu concordo com isso. Brincadeiras à parte, o Luiz (com “z”, se chamar com “s” ele fica mordido) traz bastante reflexão sobre o assunto e, quem se interessar, dá uma conferida no canal dele do Youtube.


Ter patrimônio alocado fora do Brasil dá conforto em saber que você não fica refém de um só governo e suas políticas; permite que você utilize o dinheiro em viagens para o exterior, pois mesmo que não seja em país na mesma moeda investida (quase sempre dólar), a conversão quase sempre é mais favorável e ajuda seu psicológico para aproveitar mais a viagem, já que você não está “tirando dinheiro do Brasil” para curtir a vida no estrangeiro; permite que você diversifique em diversas empresas e instrumentos que não existem no Brasil, fazendo sentido para uma gestão de risco patrimonial.


Daí tu se pergunta: e tu tens o que lá fora, AC? Bem, 2/3 da grana lá fora estão em 6 fundos mútuos, desses que tem taxas mais altas mesmo oferecidas por bancos e corretoras. Tem de bonds high yield, bons high grade, foco na Ásia, foco em mercado total dos US e um que tem carta branca pra alocar no mundo todo. O desconhecimento do mercado e o receio de fazer cagada me levaram a, inicialmente, colocar toda a grana que aportei nesse caminho mais fácil. Mantive assim porque em 3 anos de portfolio balanceado deu um retorno médio aproximado de 7% (em dólar; em real dá bem mais por conta do câmbio), dentro do que eu esperava. O outro 1/3 está em quase 30 ações e ETFs, fruto de uns meses que eu estudava uma empresa, cria na tese e comprava um pouco.

Em meus aportes futuros pretendo somente aumentar posições em ETFs para voltar a “fazer o simples” e, quem sabe, até me desfazer de algumas empresas atuais para diminuir a lista de ativos e facilitar a vida e os estudos (que, confesso, não foram muitos para aplicar lá fora).


Ando meio desligado da finansfera “sem querer querendo”, parte porque a vida não é só pensar em dinheiro e estratégias para multiplicá-lo e mantê-lo, parte porque sigo na vida nômade e a intensidade dos meus dias tem uma dimensão que jamais imaginei. Quando dá tempo, tenho priorizado gravar com os amigos e os excelentes convidados no Boteco Fire, mas este blog não irá morrer e, se você também for blogueiro, em breve voltarei à leitura de suas ideias (sou fã de todo mundo que comenta aqui e tem blog também, seria difícil nomear todos).


Abraço

domingo, 18 de julho de 2021

Guaraná zero


 

Ontem tive o prazer de encontrar um ouvinte do Boteco Fire, que irei chamar de João. Tendo atingido sua independência financeira, João vendeu a casa que morava no Rio de Janeiro e se mudou para Santa Catarina há poucas semanas, ainda com seu emprego (agora 100% remoto) e já com aviso de demissão programado para próximo novembro.


Marcamos uma praia em família: João, esposa e filho + família AC. Tivemos um excelente dia juntos e almoçamos no local, com um detalhe que me fez refletir ao fim do dia.


Por volta das 11h sentamos a uma mesa na areia e João pediu um guaraná zero. Às 11:30h o garçon voltou para servir outro item e João questionou sobre seu pedido, sob resposta de “ih, é mesmo”. Ao meio-dia (sim, uma hora depois) apareceu outro garçon com uma *coca* zero na mão, dizendo que não tinha guaraná. Resignado, João pediu um suco, o qual chegou em torno de 12:30h.


A curiosidade de todo o episódio foi que, apesar de ser a primeira vez, em algumas semanas, que João estava saindo e relaxando, após uma mudança de estado e tomadas de decisões importantes em sua vida pessoal e profissional, ele não reclamou em momento algum. Na 1h30min entre o pedido e a chegada de uma bebida – diferente da desejada – João não foi rude com os garçons, não comentou sobre a demora e falha de informação no serviço, não mudou em absolutamente nada sua postura, continuando a agradável conversa que tínhamos todos enquanto víamos nossos filhos brincarem.


Conheço muitas pessoas que, por muito menos, teriam estragado o momento se aborrecendo em silêncio ou cobrado efusivamente algum funcionário do restaurante (“chama o gerente!” ou “não vou pagar os 10%”). Eu mesmo, e, algum momento de minhas outras vidas, teria me exaltado; talvez o próprio João do passado teria tido outra conduta diante da mesma situação.


O fato é que João parecia indiferente à falta de seu guaraná zero e nutria sua sede com o agradável momento que estava vivendo. Com todas as possibilidades de encarar o copo meio cheio ou meio vazio; ter enchido o copo de paciência até transbordar; etc (escolha sua metáfora preferida), João notadamente agora tem um copo maior e o preenche com o que vem de dentro, não de fora. Flexibilidade, sem dúvidas, é uma das grandes chaves para uma vida leve.


Que você molde seu copo e o preencha nem sempre só com o que desejar, como também com o que a vida lhe proporcionar. No dia de ontem, João encheu com um momento – eu enchi o meu com cerveja mesmo.


Abraço

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Minhas quatro vidas

 Antes de mais nada, os encontros FIRE seguem a todo vapor nessa vida nômade. Nas últimas semanas tive o prazer de almoçar com o Soul e sua família (www.mundosoul.com.br) e tomar um chopp com Ivan Tonon (https://www.youtube.com/channel/UCwY0gQ1Dl1Y1qYsldkLoc_Q). Estou em Santa Catarina no momento e em breve estarei no RS; quem quiser bater um papo, deixe um comentário ou mande e-mail.

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Ouvindo o excelente podcast Rational Reminder, do excelente analista financeiro canadense Ben Felix, conheci Don Ezra, atuário com grandes contribuições ao setor enquanto ativo e, agora aposentado, contribuindo com a sociedade ao gerar reflexões sobre como lidar com a aposentadoria, tanto financeira quanto psicologicamente, com uma abordagem que, numa primeira análise, me pareceu muito interessante. Seu livro mais recente se chama “Life Two” (Vida Dois, em tradução livre) e um “livro auxiliar” ao mesmo é disponibilizado gratuitamente neste link.


Ainda estou caminhando na leitura acima, porém já me fez refletir sobre a quantidade de “vidas” que temos ao longo de nossa existência. O autor divide a existência dele em duas vidas: enquanto trabalhador e enquanto aposentado. Eu gostaria de ir muito mais além.


Na minha (curta) existência de 35 anos sinto que vivo a minha quarta vida. Chamo por “vida” o que entendia como tal a cada era.


A primeira vida foi a infância, diria que dos 0 aos 13 anos. Aquela transformação no corpo, desenvolvimento e habilidades básicas, a transição de sair só do núcleo familiar para agregar amigos à vida, entender que a escola era para ensinar utilidades para a vida. Vive-se de forma pura, sem a consciência do que a vida pode se tornar e as coisas simples, no geral, são o bastante para produzir grande felicidade.


A segunda vida foi dos 14 aos 25 anos, no meu caso. A vida era dividida em duas: estudar e se divertir. A meta dos estudos era conseguir uma boa qualificação estudantil para formar um bom pré-currículo profissional: tirar notas boas, entrar numa boa faculdade, fazer cursos de extensão e pós-graduação – tudo ainda dentro daquele formato obrigatório do jovem millenial. No lado pessoal, as metas eram namorar o máximo, se divertir, fabricar boas histórias e viajar na medida que o escasso dinheiro permitia.


Conheço muitas pessoas que ficam estagnadas no que foi a minha segunda vida. Sujeitos de 30 a 40 anos (ou mais) que são eternos estudantes, emendam cursos e mais cursos, jamais construindo uma carreira ou imagem profissional sólidas; outros, de mesma idade, cuja meta é saber “a boa do fds” e conhecer toda semana alguém diferente; muitos em ambas as situações. E assim vão vivendo, vários sob a aba dos pais/parentes, sem construírem relacionamentos amorosos sólidos, nem patrimônio material ou imaterial (contribuição à sociedade ou algo parecido).


Minha terceira vida foi dos 26 aos 33 anos, a mais curta de todas até agora. Já tendo atingido uma relativa estabilidade profissional, a meta neste âmbito era crescer orgânica e continuamente, buscando aprendizados autodidatas principalmente para fins profissionais práticos e focando muito mais em construir uma imagem do que um currículo – afinal, acho que menos de 1% dos clientes que já tive questionaram qual universidade cursei ou se tinha algum diploma de curso específico, eles queriam resultados e bom atendimento, acima de tudo. Na esfera pessoal, começava a enxergar que o mundo não é feito de números e excessos, e sim de qualidade e intensidade nos relacionamentos; o número de amigos e mulheres foi reduzindo, ficando cada vez mais quem realmente importa, até que amigos ficaram poucos e mulher somente uma e permanente (“mulheres” no plural me refiro a frequência de trocas, não necessariamente em simultaneidade, que fique claro).


Neste ponto eu presumo que grande parte das pessoas fique estagnada até a próxima vida (aposentadoria e/ou terceira idade). A vida profissional passa a ser uma eterna busca por mais e mais. O supervisor quer virar coordenador, depois gerente, depois superintendente, depois diretor… sempre buscando um salário e status maior. Há quem nem se importe com o cargo, somente com ganhar mais e mais para sustentar uma aparência social ou acumular dinheiro por acumular, sem um objetivo específico, sempre sob o manto da desculpa de “conforto”. A pessoa com grana pra 10 apartamentos não tem mais conforto da com grana pra 4. Na parte pessoal, alguns desanimam rapidamente de um relacionamento estável, ora mantendo o mesmo para fins sociais (especialmente quando casado no civil e religioso e, mais ainda, quando já tem filhos), ora terminando relacionamentos e buscando incessantemente a outra metade da laranja, sem saber que a perseverança em renovar a parceria é o principal ingrediente pra evitar que sua atual metade da laranja fique azeda.


Aos 34 anos, faz pouco tempo, sinto que iniciei minha quarta vida. O plano profissional foi substituído pela independência financeira, esta nunca entendida como abundância de dinheiro, mas sempre como a satisfação com o que o já tem e um planejamento sólido – sujeito à revisões conforme o mundo gira – para perpetuar o patrimônio. A vida pessoal consiste em passar 24h com esposa e filha, aproveitando os momentos bons, aprendendo com os ruins e buscando qualidade de tempo com os demais familiares (muitos deles pouco lembrados pelas metas das vidas anteriores) para que se tenha o que realmente importa. Ainda, aprender um novo pensamento filosófico ou abordagem de saúde soa infinitamente mais útil que saber a última novidade da minha área profissional (fundamental para quem se encontra na vida anterior).


Olhando em retrospectiva, cada vida parece ter sido, de fato, uma vida passada, um aprendizado que dificilmente terá retorno sob qualquer aspecto. Há um vídeo do Mario Cortella (desculpe, não salvei o link) que ele expõe que muitos casamentos terminam porque um dos cônjuges afirma ao outro: “você não é mais o mesmo”. É muito interessante quando finalmente parei para perceber que nem eu nem você somos mais os mesmos que fomos anos atrás; já não somos os mesmos que fomos ontem, mesmo que em uma micromedida, agindo o fator tempo como os juros compostos modificando nossa essência.


O mais curioso da minha vida atual é que pareço habitar num mundo paralelo a quase todos os conhecidos, ainda vivendo majoritariamente na minha vida anterior. O paralelismo também é digno perceber junto àqueles que tem vidas absolutamente distintas por razões circunstanciais de localização e renda (díspares para muito menos ou muito mais). O fator principal e que muito me orgulho, posto que fruto da minha construção ao longo dos anos, é que hoje faço praticamente tudo que quero e aprendi a não querer o que seria impossível ou de grande sacrifício.


Que a vida atual seja perene e que eu tenha sabedoria para me enquadrar nas próximas que virão.


E você, parou para contabilizar quantas vidas já viveu, em qual se encontra hoje e qual deverá ser a próxima?


Abraço

sábado, 26 de junho de 2021

The best of AC #4

A série de posts “The best of AC” expõe uma curadoria de frases, links, vídeos e estudos que guardei, a partir de 2018, para me recordar futuramente. Adoraria que você colocasse nos comentários abaixo uma dica de algo interessante, não necessariamente ligada a investimentos, para que juntos possamos aumentar nosso conhecimento ou divertimento.

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Antes de mais nada, tem episódio novo no Boteco Fire, hoje com o Executivo Investidor, ex-blogueiro FIRE, ex-inquilino do Sr. IF 365 e muita história pra contar! Não deixe de ouvir na sua plataforma de podcasts favorita.

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1) Hope is not a strategy. Luck is not a factor. Fear is not an option.

Salvo engano, essa frase é do James Cameron, o diretor de Titanic, Avatar, dentre outros. Gostei e guardei. Útil para tempos de crise.


2) https://www.thesimpledollar.com/finding-the-purpose-of-financial-success/

Uma boa forma de encarar e conceber o que é o “sucesso financeiro”. Destaco os trechos:

Se você escolhe não envidar esforços para melhorar suas finanças, não pode esperar que elas melhorem.”

Esforço é a chave para sucesso financeiro ou qualquer tipo de sucesso. Se você trabalha duro e não encontra o sucesso, ou precisa olhar com mais atenção para onde está direcionando seu esforço ou precisa reconsiderar o que entende por ‘sucesso’.


3) https://www.numbeo.com/cost-of-living/

Numbeo é um site colaborativo que estima o custo de vida em inúmeras cidades globais, podendo comparar uns com outros na moeda que desejar. A análise é detalhada e muito útil, sob minha perspectiva. Já fiz muitas e muitas comparações nele para ver qual seria o limite entre o sonho e realidade, porém creio que ver com muita antecedência (antes de uma mudança ou viagem mais longa) seja ruim, já que o câmbio pode distorcer muito se o intervalo entre a pesquisa e a viagem for grande. Existem outros, mas este é o melhor site do gênero que encontrei.


Hoje é só isso, o turismo tem estado bastante intenso na última semana por conta de um casal de amigos que está me visitando e as poucas horas que sobram são para tocar o trabalho que ainda levo e dar atenção à família.


Abraço