sábado, 26 de dezembro de 2020

Te amo, mas preciso partir.

O ano era 2005. Com 18/19 anos e em meu 2º emprego com carteira assinada, acordava às 6h, tomava café da manhã e, enquanto me arrumava até chegar no trabalho, ouvia o “Transnotícias – o seu Primeiro Programa” na Rádio Transamérica. O programa tomava minha atenção desde o despertar, até o fim da caminhada de 2km para o trabalho (enquanto, feliz, economizava o vale-transporte que tinha direito). Nesta época, aprendi o valor do auto-aperfeiçoamento em diversos campos da vidas, pois os ápices do programa não eram as notícias em si, mas os poucos minutos em que os colunistas passavam ensinamentos e mensagens positivas que até hoje me lembro em boa parte.


No time do programa estavam o mestre Gustavo Cerbasi (hoje conhecido em larga escala, maior referência em educação financeira para mim), Luciano Pires (um dos “desconhecidos” do grande público que mais estimo pelo conteúdo e credibilidade, desde aquela época com o programa-conceito Café Brasil, que acompanho até hoje via podcast e Youtube), Irineu Toledo, Daniel Luz, Renata Leite e José Luiz Tejon. Foi o único programa de rádio em minha vida que tive imenso prazer de ouvir e, a cada dia, me sentia melhor e mais preparado em diversos campos da vida.


Comecei minha jornada nômade passando 12 dias em minha cidade natal, onde ainda tenho a maior parte da família e amigos. Ao mesmo tempo em que lutava contra os receios de não ter mais um lar, estar na minha zona de conforto, onde vivi quase 30 anos de minha existência que passa os 34, ajudou muito a minimizar a inevitável preocupação com os próximos passos da aventura que construí. Justamente à véspera de partir do meu berço, sem data para retorno e com maior dificuldade de visitas esporádicas, lembrei de um texto chamado “Desapego”, declamado por José Luiz Tejon naquele distante 2005 em um dia útil qualquer na rádio. Aqui o transcrevo na íntegra, após muito dificuldade em encontrá-lo:


Eu te amo, mas preciso partir. Ouvintes vocês já viveram a legítima situação do desapego com muito amor. Cair na Real da vida é difícil, por bem. Geralmente caímos na real sob as tempestades, as tsunamis. Quando as coisas estão ruins, falta tudo, o sofrimento é imenso, não é dificil querermos mudar. O incômodo é tão grande que lutamos bravamente para alterar o rumo das coisas. O dificil mesmo é mudar, seguir a sua evolução quando as coisas estão bem. Confortáveis.


Você gosta e até ama muito as situações nas quais está vivendo. Ama seus filhos. Ama sua esposa, seu marido. Ama o seu emprego. Ama a sua casa. Mas, ao mesmo tempo em que você ama tudo isso, e se sente amado, alguma coisa maior lá dentro de você te cutuca, te incomoda, te angustia e te pergunta: você vai parar por aqui? Está tudo ótimo com os seus filhos mas você sente que eles precisam partir. Pegar estrada. Encontrar suas vidas, correr o mundo. O que você faz?


Você os ama. E agora? Precisa dizer eu amo vocês, mas vocês devem partir! Ou você ama e é amado pela outra pessoa. Vivem uma situação confortável. Boa. Mas algo lá dentro de você grita: existem coisas que você ainda não resolveu nas descobertas da sua própria vida. Você vai continuar aqui ou vai começar de novo nessa busca interior? E agora? Você precisa dizer: meu amor, eu te amo, mas eu preciso partir!


A mesma coisa acontece num emprego bom, numa carreira sólida. Você já venceu etapas importantes, conquistou posições. Lutou muito para chegar ali. E agora? Você pode usufruir dessa luta. Mas, novamente, algo lá no fundo de você acorda e grita: Tejon, eu quero aprender mais. Eu preciso saber mais de mim mesmo. Você não pode parar. E o que você faz ? Você diz: eu amo esta empresa, amo a minha posição, mas preciso partir!

Na sua casa, nos seus bens, na sua cidade, em tudo. Nossa vida tem uma jornada. Paramos no meio dessas jornadas, muitas vezes pelo conforto das pousadas que encontramos ao longo do caminho. Ou então, pelo desânimo de continuar botando o pé na estrada. Incomodados, acoçados nos movimentamos. Mas, quando estamos bem, ou pensamos estar bem, estacionamos.


Ao ouvir as vozes da nossa criança, lá dentro de nós, gritando alto... continua, olhá lá, o que vem depois daquela curva, onde é o fim daquele arco-íris, ficamos tomados pela vontade do seguir. E como é dificil ouvinte, seguirmos com amores que ficam para trás. Como é dificil dizer: eu te amo, mas preciso partir! Ao analisarmos bem isso, talvez possamos cair na real. Ao pararmos, o nosso amor pode, sem querer, se transformar em uma parada também para os outros seres amados.


Ao seguirmos pela nossa estrada, podemos estar mostrando para todos os que amamos, que a vida é um continuar. E, desse exemplo maior, uma prova de amor superior existir. Um amor generoso e de realidade com a vida. Podemos seguir juntos nessa estrada? Podemos, se nossas linhas de evolução assim permitirem. Podemos desde que uma vida não anule a outra. Mas, geralmente, na maioria dos casos, as nossas jornadas são individuais. O verdadeiro amor é como linhas paralelas locomovendo-se para o mesmo infinito.

Prepare-se sempre para o desapego. Pelo bem é difícil, mas é inteligente e muito mais nobre.


Em 2017, parti para outra cidade perto o bastante para visitar regularmente, longe o bastante para não o fazer assiduamente. Hoje parto para longe e com destino final desconhecido. 

Nunca é um bom momento para partir; sempre é um bom momento para partir. O cotidiano da família imediata anda conturbado, com minhas avós doentes e dependendo de auxílio 24h, meus pais responsáveis imediatos pelo zelo de suas mães, minha irmã ainda lutando para retornar à estabilidade após um problema súbito e complicado de sanar. Partir significa que não os amo? Claro que não. Carinho e atenção também podem, mesmo que em menor grau, serem prestados à distância. Mesmo que eu morasse no mesmo bairro, tenho cá meus dependentes também para cuidar e não poderia estar diariamente dentro de uma casa que não é minha.

Se não partir agora, quando? Quando minhas avós se forem? Podem levar 2 meses, 2 anos ou 10 anos. Quando acontecer o inevitável, e se forem meus pais a precisarem de ajuda? Daí talvez eu evite mudanças para não atrapalhar a vida escolar e social do(s) filho(s), irei aguardar se formar e sair de casa. Talvez eu que esteja velho para então partir. Talvez amanhã ocorra um evento imprevisível – como com minha irmã, apenas 3 anos mais velha – e eu não possa concretizar meus planos por incapacidade própria.

Parafraseando o escrito por Tejon, minha estrada agora correrá em paralelo, rumo ao infinito, sempre recordando todo amor à minha família. Não fazer o que meu coração manda significará anular minha vida em prol de outra – e eu só tenho uma. 

Abraço 


 

12 comentários:

  1. Essa sua jornada pós-independência está sendo fantástica, seus posts estão muito ricos de reflexões sobre a vida.

    Acho que parte disso é possível pela fase que está vivendo, fora da corrida dos ratos que nos prende no cotidiano e esconde a velocidade com que o tempo passa.

    Boa viagem e boas descobertas!

    Abraços,
    Pi.

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    1. Obrigado, PI. Um pouco de tempo para pensar ajuda bastante. A tranquilidade financeira só tira os problemas que (a falta de) o dinheiro traz, mas a vida é bem mais complexa que essa moeda de troca.
      Seus posts também são muito bons e seguirei firme na torcida pra chegar sua hora logo.
      Abraço

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    1. Se for usar com a esposa, não precisa mencionar a fonte de inspiração! Rs
      Abraço

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  3. Oi AC, que texto inspirador. Não deve ter sido fácil encontrar mesmo, mas valeu muito a pena. A cada escolha, diversas renúncias são feitas. As pessoas geralmente só enxergam as nossas escolhas, e esquecem de todas as renúncias que fizemos, de tudo o que ficou para trás. É uma decisão corajosa, e espero que você aproveite a sua jornada. Com certeza, será uma profunda jornada para o auto-conhecimento. Beijos.

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    1. Olá, Yuka! Você disse tudo: ninguém observa as renúncias. É bem mais fácil um jovem solteiro, doido para sair da casa dos pais, viajar o mundo errante. Lá na frente alguém vai ver umas fotos e pensar "pra ele foi fácil porque...".
      Obrigado pelo apoio de sempre e sigamos juntos na jornada!
      Beijos

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  4. Fala, AC,

    Que delícia de texto! Não é realmente uma decisão fácil para ser tomada, mas, como você bem encerra o seu texto, só temos uma vida e não podemos deixar de vivê-la à nossa maneira. Sempre vai haver problemas familiares, mas você não pode carregar todos nas suas costas -- seria até injusto.

    Siga sua jornada sem nenhum sentimento de culpa. Você merece cada nova experiência que há de vivenciar nos próximos destinos.

    Forte abraço.

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    1. Oi Thiago! Morar longe da família é um desafio considerável, muito comum pra quem o faz em razão de trabalho ou por falta de afinidade com o sangue mesmo. Difícil é pesar entre duas escolhas que agradam.
      Obrigado pelo carinho de sempre.
      Abração

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  5. Que texto legal, incrível como você lembrava dele e ainda foi buscar e achar ahahhaha.

    Estou totalmente alinhado contigo, nas expectativas e nos medos e o que eu tenho pra comentar é vá!, só vai e seja feliz, isso lembrou de um trecho do livro Antifrágil que ele fala que a vida precisa de aleatoriedade e momentos de fragilidade pra nós sentirmos mais vivos, mais presentes, mesmo que isso traga algum abalo lá na frente isso vai ser bom, porque somos antifrágeis haha.

    Curta sua jornada e suas experiências, depois venha aqui contar pros amigos! rsrs

    Abçs

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    1. Obrigado, Thiago! Tem umas coisas que marcam e esse texto me marcou por uma visão totalmente diferente na época.
      Abração

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  6. Estou aplaudindo aqui... Emocionante! E me passou toda sua emoção nas suas palavras. Te desejo muita boa sorte e realizações nessa nova fase.

    Como disse um português "qualquer" aí... Navegar é preciso"

    Abraço.

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    1. Obrigado, Sapien! Vamos navegando que a vida é uma só.
      Abração

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