quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Órfão FIRE

 

Tenho um amigo que, infelizmente, perdeu os pais e avós antes dos 20 anos, herdando 5 imóveis. Um imóvel ele utiliza para morar e os outros 4 mantém alugados – os familiares já utilizavam para renda, trabalharam arduamente para construírem este patrimônio.


Meu amigo, todavia, nunca trabalhou arduamente. Com mais de 30 anos, tem no currículo 4 cursos universitários incompletos (nada “tocou seu coração”) e dois estágios, cada um com cerca de 8 meses de duração (sempre saiu porque “estava sendo prejudicado”).


Até hoje reflito minha opinião sobre ele. Passa a maior parte de seus dias vendo TV e ouvindo música, nunca fez cursos livres, buscou se aperfeiçoar pessoal ou profissionalmente (em qualquer área que seja) e, todavia, é um pessimista inveterado, não havendo um diálogo sequer que eu trave com ele em que não reclame de algo (nem que seja do clima ou da política). Não sabe fazer uma declaração de imposto de renda e não faz noção de como manter um imóvel sob qualquer ótica: estrutural, contábil ou jurídica, sempre terceirizando tais atividades (e gastando com isso), mesmo sendo esta a única fonte de renda dele há quase 20 anos.


O fato é que ele recebe uma grana razoável dos aluguéis e tem um padrão de classe média confortável, apesar de não ter grandes luxos. Gasta praticamente tudo que recebe e, nas raras vezes que sobra alguma grana, não faz ideia de como investi-la.


Ele é muito honesto e de bom coração, um grande amigo, mas decidiu não aprender nada do mundo profissional, das finanças ou do autoconhecimento.


Estou narrando tudo isso para uma reflexão coletiva, amigo leitor. De longe, ele não é um sortudo, pois não ter nenhum ascendente desde jovem é uma grande lástima. Tive oportunidade de conhecer os pais e avôs dele e posso afirmar que todos batalharam muito para construção do patrimônio e o fizeram com o intuito de dar uma vida melhor aos filhos e netos – o que conseguiram.


Desde o início da vida adulta, o amigo recebe renda passiva mais suficiente a uma vida confortável e nunca procurou maximizar essa renda nem gerar alguma forma de renda ativa, se enganando (e enganando alguns, por um tempo) de que suas várias faculdades iniciadas iriam lhe trazer uma “carreira” e um “trabalho”, quando fica nítido que nunca foi intenção dele cursar nada (ele está há mais de 18 anos “na faculdade”).


O universo FIRE teria salvado a vida desse amigo há 20 anos, pois ele não se sentiria nessa obrigação social e moral de fazer uma faculdade e ter um emprego, a qual, em contraponto com seu desejo mais íntimo de não fazer nada, só lhe causou prejuízo psicológico e financeiro (todas as faculdades cursadas eram privadas).


Está tudo bem, meu amigo! Não é vergonha não trabalhar e não ter um diploma! Liberte-se do que os outros pensam, ninguém paga suas contas!


Já tentei inúmera vezes abordar o assunto de planejamento financeiro com ele (e ele sabe que eu entendo um pouco disso), mas ele sempre desvia do assunto e não demonstra nem querer saber, já que teve sua renda garantida do jeito próprio. De minha parte então, resta torcer para que sua renda passiva sempre acompanhe seus gastos e padrão de vida, na medida em que muito triste será vê-lo ter que vender um imóvel após o outro para suprir gastos previsíveis (que ele não terá previsto, mas irá jurar que eram cisnes negros) durante a velhice.


Conto a história acima porque é muito comum vermos histórias de nascidos em berço de ouro que sempre foram playboys ou preparados desde a infância para assumirem a presidência da empresa do pai, mas não dá mídia histórias de um órfão de classe média que passa boa parte da vida infeliz por mera pressão social.


Abraço

16 comentários:

  1. Muito interessante esse caso. Achjo que de fato para as pessoas que nascem em "berço de ouro" é mais difícil conseguir entender certas coisas e dar valor a elas. Enxergar a ótica de coisas que estão fora da nossa "bolha" requer esforço e vontade, sem dúvida alguma.

    Abraço!
    https://engenheirotardio.blogspot.com/

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    1. Pois é, ET, e posso afirmar com convicção que não foi por falta de acesso a informação, círculo social , sugestão de amigos...
      Abraço

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  2. Interessante o relato. Tenho um certo pé atrás com pais que querem dar tudo que podem aos filhos sem pensar que as vezes temos que tirar certas coisas pra eles entenderem algo mais profundo. Esse caso do seu amigo bate em cheio com o exemplo pessimista que tenho em mente, onde a pessoa não se desenvolve, não produz nada, não "vive", fica apenas a mercê da sociedade e da batalha que os pais deram.

    Pra se ter uma boa visão de mundo tem que primeiro viver né e pessoas que nascem em "berço de ouro" não vivem, são apenas conduzidas =|

    Bomm texto, abçs

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    1. Thiago, realmente mimar demais resulta em problemas. Os pais querem fazer o melhor pros filhos, mas acabam prejudicando gravemente o psicológico.
      Não diria que ele nasceu em berço de ouro, mas herdou um "berço de bronze" e só ficou deitado desde então.

      Abraço

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  3. ótimo caso
    perder tanta gente querida tão cedo deve ter ferrado com a mente dele (talvez ele seja deprimido, sei lá)
    por outro lado, o poder do dinheiro é limitado e sem necessidades financeiras poucos aguentariam as pressões do mercado de trabalho
    enfim, ele é um azarado sortudo

    abs!

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    1. Ferrou sim. O conheço desde criança e já não estava fadado a ser nenhum grande gênio profissional, mas as perdas precoces jogaram uma pá de cal nas pretensões de desenvolvimento.
      O dinheiro limitado será um grande problema num futuro não tão distante, mas torcerei pelo melhor.
      Abraço

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  4. Nossa sociedade dá muito valor para o esforço. Quando o resultado vem sem esforço, achamos que não existe merecimento. Apesar de eu trabalhar desde meus 14 anos de idade, fiz por merecer a vida que tenho hoje. Ainda assim, me pego com um sentimento, mesmo que inconsciente, negativo. Em um momento tão difícil para nossa sociedade, em que milhores de pessoas estão procurando emprego, me vejo tendo resultado financeiro satisfatório e sem nenhum esforço. Acho que este é um aspecto do mundo FIRE que só conseguimos entender a partir do momento que se torna realidade em nossas vidas. Estou aprendendo e confesso que não está fácil

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    1. Sapien, sem dúvidas você é muito merecedor de estar onde se encontra e não há razão alguma para se comparar à média.
      Quem sabe você não aproveita o tempo e eventuais recursos adicionais para ajudar a fazer a diferença para quem precisa? Em breve trocaremos uma ideia filantrópica.
      Abraço

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  5. No caso eu vejo que ele tem sim sorte, apesar das perdas familiares. Herdou um patrimônio muito bom, no fundo, sempre somos medidos pelo patrimônio que temos. Na nossa sociedade, tudo é dinheiro. Eu que não tenho nenhum, sou frequentemente tratado como um indigente, como outros milhões de brasileiros na linha da pobreza.

    É dessa forma, quem tem dinheiro acha que ele traz infelicidade (meia verdade), quem não tem acha que ele trará (meia verdade também)...Essas icógnitas da vida a gente nunca conseguirá decifrar...

    https://umpobrelascado.blogspot.com/

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    1. Bem vindo ao blog, Pobre Lascado!
      Ter dinheiro te livra dos problemas que a falta dele traz, mas nem de longe de livra de todos os problemas humanos que a vida reserva. Simples assim. A vantagem de ter dinheiro suficiente é poder refletir e cuidar mais da parte da vida que não depende só de moeda de troca.
      Estou indo agora conhecer seu blog.
      Abraço

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  6. Oi AC, esse é um dos medos que eu tenho em relação à criação de filhos, errar na dose. Minhas filhas já vivem uma vida infinitamente mais confortável do que a vida que eu tive, têm muito mais brinquedos do que eu tive na vida inteira, e já sinto que elas não valorizam as coisas que tem. Na minha época, tínhamos pouquíssimos brinquedos e cuidávamos dele, porque sabíamos que brinquedo era algo raro em casa. Claro que quero dar conforto e oportunidades, mas não quero dar tudo para elas a ponto de acharem que não precisam fazer nada, ou que irão depender de mim para sempre. Esse post gera uma ótima reflexão. Beijos.

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    1. Yuka, é uma linha tênue que divide o conforto dos pais em tentar dar o "melhor possível" e a percepção da criança de que a vida é fácil. Conheci bons exemplos que deram certo e muitos exemplos que deram errado.
      Hoje temos fontes fartas de conhecimento para prestar educação financeira desde cedo às crianças e evitarmos que fiquem mimadas, mesmo com uma vida extremamente aprazível. Tomara que a gente se saia bem nesta jornada de formação de caráter.
      Beijos

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  7. Olá AC,

    A situação dele é muito complicada, realmente perder a referência dos pais no começo da vida adulta é muito complicado e fez uma diferença danada na formação dele.

    Agora ainda acho que seu amigo está com "sorte", a maioria da galera que recebe uma herança ou vive nas custas do patrimônio familiar tem um dom nato para perder tudo em poucos anos e se atolar em dívidas, ele pelo menos conseguiu manter o que herdou.

    Abraços,
    Pi

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    1. Nunca pensei por este lado, PI. Sempre fiquei meio indignado por ele não correr atrás de nada e nem tentar crescer o patrimônio para patamares ainda mais confortáveis, mas você tem toda razão ao dar mérito por ele ter ao menos mantido os imóveis todos nestes mais de 15 anos de orfandade; muitos já teriam depletado tudo.
      Abraço

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  8. Esse ai vai caber naquela história do Avô milionário , Pai rico e Neto pobre. A história só está meio curta ainda pra saber se ele vai ser o Neto ou o Pai...

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    1. Isso aí, Mineiro. Torço pra que ele consiga equacionar seus gastos com sua renda e manter o patrimônio ao longo das próximas décadas.
      Abraço

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