domingo, 7 de junho de 2020

MAXIMALISMO: da quitinete à mansão

A felicidade não depende do quanto você tem para desfrutar, mas de quanto você desfruta do que tem.” – Tom Wilson

 

Eu nunca fui minimalista, mas sempre comedido. Gastava um bocado com restaurantes e compras inúteis de bugingangas chinesas, porém nunca, nunca mesmo, gastava mais do que ganhava no mês.

A única dívida que tive na vida foi um financiamento imobiliário, sendo que, apesar de ter o dinheiro para comprar o imóvel à vista, preferi usar para investimentos (que felizmente superaram os juros do financiamento – NÃO recomendo essa estratégia, foi um período excepcional e eu paguei ALTOS juros ao banco).

Na minha trajetória (https://www.aposentecedo.com/2019/12/trajetoria-do-aposente-cedo.html), você pode notar que eu era quase nômade, pois me mudava com frequência sempre que arrumava alguém pra comprar minha residência com um lucro mínimo que eu projetava.

Como bom ser humano médio, a cada mudança eu aumentava o padrão de vida. A cada aumento, mais bens se tornavam “necessários”.

Primeiro imóvel: quitinete de 20m². Cama, geladeira, TV, máquina de lavar, fogão de 2 bocas.

Segundo: quarto e sala de 45m². Todos os bens anteriores + “é hora de ter um fogão de 4 bocas” + “já que tem sala, preciso de um sofá e uma mesa de jantar”.

Terceiro: 2 quartos de 62m² (e num bairro mais caro). Todos os bens anteriores + “bem, já que tem um segundo quarto, vou botar uma cama de hóspede” + “como a cozinha é maior, vou comprar uns nichos pra colocar garrafas de bebida” +  “agora vou ter um guarda-roupas grande e bonito”.

Quarto: 3 quartos de 90m² (no mesmo bairro mais caro). Todos os bens anteriores  + “puxa, com essa cozinha grande, vou botar uma mesa aqui e comprar outra pra sala de jantar” + “essa parede merece um quadro bonito” + “agora posso ter aquela bicicleta dentro de casa” + “sou uma pessoa só – vou fazer um dos quartos de escritório e outro quarto para visitas” + “opa, uma rede aqui ia ficar legal” + “na área não bate muito sol, então vou comprar uma máquina que lava e seca”.

-- Observação: a partir daqui, havia concluído que era melhor parar de comprar imóvel para moradia e passar a morar de aluguel, usando o saldo para novos investimentos.

Quinto (mudança para um bairro beeem distante, mas com melhor qualidade de vida): 3 quartos de 100m². Padrão anterior praticamente mantido, visto que a nova distância para os afazeres habituais da vida demandava uma adaptação que poderia não ocorrer. Como estava bem mais distante, era “hora de comprar um carro de novo”, após mais de 6 anos sem carro.

Sexto (no bairro distante, houve uma boa adaptação): MANSÃO. Terreno com mais de 1.000m², casa principal com cerca de 300m², 5 quartos, 2 salas imensas, varanda circular, piscina aquecida 4 x 8, churrasqueira e sauna; casa de hóspedes com 50m² e dois quartos; capela; garagem coberta para 4 carros e descoberta para 16 carros; viveiro; árvores frutíferas; horta; casa de funcionários com 2 quartos (cerca de 35m²). Só o banheiro e closet da suíte master eram maiores que meu primeiro imóvel.

Era isso, hora de “viver o sonho”. O patrimônio tinha crescido, a renda ativa e passiva também e eu “merecia”. Bem, “não dava” para deixar tudo vazio. Gastei o equivalente a um carro popular 0Km só para mobiliar tudo, afinal, uma sala imensa “precisava” de uma mesa maior (8 lugares), um sofá de 3m de comprimento, um painel gigantesco de TV, uma geladeira extra pra área da churrasqueira, itens para churrasco (facas, espetos, etc), um aparelho de jantar para a área externa, mais uma cama de hóspedes... já que tem ainda dois quartos vazios, “vamos fazer um quarto de música aqui e uma sala de ginástica ali”. Óbvio que com uma varanda circular bonita daquelas, tinha que comprar uma mesa de sinuca.

Depois de algumas dezenas de milhares de reais gastos para “viver o sonho” e deixar “a casa pronta”, era só desfrutar – só que não. Tá caindo muita sujeira na piscina – temos de comprar uma lona sob medida para cobrir. Claro, tem que contratar um piscineiro pra mantê-la limpa ao menos 1x na semana. Com um terreno daquele tamanho, tinha que contratar um jardineiro. A faxineira que até a casa anterior ia 1x por semana, pra fazer o “grosso”, passou a ter que ir 3x na semana (junto com o vínculo empregatício e os encargos de férias, 13º, etc). Quinzenalmente alguma coisa em algum lugar do imóvel gerava manutenção: chama o rapaz pra trocar telha, emendar um cano, limpar a calha, ajeitar uma fiação...

Muitos cômodos, muitas luzes. Conta de energia elétrica triplicou em relação à residência anterior. Conta de água quintuplicou por causa da piscina e pequenos problemas hidráulicos que apareciam cada hora em um lugar. Não dá pra manter a horta vazia, então bora lá comprar mudas, sementes, adubo, veneno pra pragas e formigas, etc. Sauna tem que ter pedras específicas e essência de eucalipto pra ter graça. O terreno tá mal iluminado, hora de instalar uns refletores adicionais. Opa, bebê a caminho: temos de instalar grade em volta da piscina.

Bem-vindos ao maximalismo, o oposto do minimalismo.

Os custos intrínsecos desse upgrade de vida não foram devidamente calculados. No final da equação, o orçamento doméstico era muito superior ao previsto (felizmente, ainda abaixo das receitas mensais), o que diminuíra drasticamente a taxa de poupança e atrasaria minha jornada FIRE.

A verdade é: sim, aproveitei 70% de tudo. Malhar em casa de chinelo e sem camisa, fazer sauna peladão, churrasco com amigos finais de semanas alternados, tocar um som com a rapaziada, comer verduras e legumes da própria horta, tudo isso era muito bom. Sim, era feliz ali, porém tinha um objetivo maior.

A continuidade naquela residência, sem dúvida, retardaria em alguns anos a aposentadoria antecipada e poderia colocar em risco o equilíbrio das finanças, visto que não tenho salário fixo.

Essa jornada maximalista foi um aprendizado anti-Fire e de vida.

Minha família sempre foi simples, mas nunca possuiu grandes dívidas ou passou necessidade; na faixa dos 30 anos ambos os pais tinham seu apartamento próprio e algum trocado na poupança. Talvez o maximalismo tenha me subido à cabeça após subir alguns degraus na escada social de onde iniciei.

O grande aprendizado de vida foi tocante à uma crítica comum que os Firees fazem àqueles que fazem parte da corrida dos ratos: não se adequarem a um padrão de vida superavitário. Eu mesmo inúmeras vezes critiquei alguém que estava se endividando, porém se recusava a baixar o padrão de vida. Criticava porque pensava que era “simples” se desfazer de alguns luxos, se mudar pra um imóvel menor, para um bairro de classe social mais baixa, etc. Não é. Afirmo isso porque esse ano eu me mudei da mansão para um apartamento de 2 quartos. Por opção.

É incrível como, apesar de não ser materialista (taque pedra à vontade, mas sei que não sou), cada pessoa que ia na mansão comprar a mesa de jantar mega-blaster, os aparelhos de academia, o sofá gigantesco, os instrumentos musicais, etc, etc, parecia que estava me dando uma facada. Em parte estava, já que vendi tudo por cerca de 50% do valor de aquisição e tudo estava em perfeito estado.

Era curiosíssimo como eu e minha esposa chegávamos a chorar quando algum móvel (especialmente os que usávamos intensamente) saía daquela casa, cada dia mais vazia, mas 5 minutos depois estávamos rindo e mais leves, felizes que todo aquele desapego visava um bem maior num futuro próximo.

Como o apartamento atual é semi-mobiliado, livrei-me de 95% dos móveis que possuía, mantendo somente alguns eletrodomésticos, uma cama de casal, roupas e os itens do primogênito. Alguns meses depois da mudança, estamos mais felizes, mais leves, não precisamos mais de nenhum prestador de serviço doméstico e a vida parece mais simples, com uma rotina fácil de lidar, mesmo com todos os transtornos da quarentena.

Também nesta última mudança doamos 50% de nossas roupas e outros bens que não possuíam liquidez ou que tinham valores de revenda (usados) que não valiam a pena o trabalho de ficar anunciando e vendendo (é uma ladainha danada quando você tem dezenas de coisas para vender) e, a cada dia, nos tornamos mais minimalistas. Todos os bens de minha família, incluindo móveis, hoje caberiam em um imóvel de 20m², o que, curiosamente, remonta à origem de minha vida adulta morando sozinho.

Como a Elsa postou mês passado (http://www.sempresabado.com/o-verdadeiro-segredo-da-vida-fire/ ), o segredo da vida FIRE não é ter um patrimônio que te proteja de tudo; o segredo da vida FIRE é ter uma vida tão simples que dificilmente sua sobrevivência estaria ameaçada.

Agradeço à Yuka, do blog https://viversempressa.com/, pelos excelentes ensinamentos sobre minimalismo, os quais sempre agregam para um grau de satisfação cada vez maior com cada vez menos posses.

E você, leitor, prefere ser maximalista ou se aposentar cedo? O nome do meu blog me denuncia.

18 comentários:

  1. Oi AC, obrigada pela menção ao meu blog :D
    Você sabe que eu e o marido estamos pensando em nos mudar de onde moramos atualmente, e a única regra que estipulamos é "não escolher um apartamento muito grande" (mesmo o valor do aluguel sendo exatamente o mesmo de um apartamento menor), por justamente o que você descreveu no post, eu teria que preencher os espaços vazios. Meu sofá que eu já acho grande, seria pequeno em um apartamento de 130m2, minha televisão iria parecer de brinquedo, teria que comprar uma mesa maior, e com isso, os gastos aumentariam sem necessidade. Claro que os amigos já moram em apartamentos lindos (moradia própria) e isso faz com que eu também queira um lugar fixo, apartamento reformado e decorado, mas sempre lembro que tenho um outro objetivo de vida que eles não têm: a de aposentar cedo. E aí, sempre chego a mesma conclusão, de que estou fazendo a escolha certa de viver não com o excesso, mas com o suficiente. Adorei seu post de hoje (como sempre!), é uma grande lição de vida e de aprendizado. Beijos.

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    1. Obrigado, Yuka! Realmente não dá pra gente ficar nessa de "keep up with the Joneses" e nem de achar que quanto mais, melhor.
      Há quem prefira priorizar o agora, viver o momento e deixar o amanhã para depois, porém diminui drasticamente a chance de sair da corrida dos ratos a tempo de aproveitar a vida ainda com muita energia.
      Beijos

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  2. Excelente texto.

    É aquela velha lição onde a cada aumento de renda acabamos sendo tentados a aumentar o padrão de vida. O importante é que você reconheceu os excessos que estava cometendo e resolveu buscar um caminho diferente.

    Aqui na minha cidadezinha do interior existiu um grande boom econômico entre meados de 2009-2013 e muita gente começou a viver de forma cada vez mais cara, pois a cada ano havia a expectativa de conseguir uma renda cada vez maior o que ia sustentando o "upgrade de vida", mas uma crise ganhou espaço entre meados de 2014-2017 e muita gente simplesmente não conseguiu o downgrade do padrão de vida, você não tinha grandes custos fixos e isso ajudou no downgrade, mas muita gente se enfia em financiamentos e empréstimos que no primeiro sinal de queda da renda engolem a pessoa por completo.

    Agora estamos vivendo uma crise séria e estou vendo muita gente passar um verdadeiro sufoco ao ver que é impossível reduzir seus gastos.

    Abraços,
    https://poupadordointerior.blogspot.com/

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    1. Exatamente, PDI. Não é questão de ter custos fixos altos, é de não se endividar. Pior do que subir o padrão de vida constantemente é subir ALÉM da capacidade financeira imediata, contraindo empréstimos; não existe essa história de "a prestação cabe no bolso": ou a pessoa deveria ter o suficiente pra comprar à vista e financiou por questões estratégicas de investimento ou nem deveria contratar.

      Abraço

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  3. Caramba AC, que post fodaaaa!!! Muito bom, li 2x de tão tocante que foi.

    Muito obrigado por esse relato e não sei nem por onde comentar, vou fica até queto.

    Você resumiu perfeitamente o essencialismo (parecido com o minimalismo, mas diferente)

    Ficou perfeito por si só! Parabéns!

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    1. Valeu, EPI! A vida vai levando a gente pra caminhos inesperados e às vezes temos que pisar no freio pra uma realidade mais completa, pois nem sempre mais é melhor.
      Abraço

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  4. excelente relato

    uma vez li uma reportagem que dizia que o ser humano normalmente se apega sentimentalmente a um bem em questão de minutos, o que facilita a acumulação

    interessante vc estar mais feliz com o padrão original da vida adulta sozinha - parece que esse é o "padrão de fábrica"


    abs!

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    1. Obrigado, Scant! Nunca me apeguei a nada em minutos, mas sempre foi um sonho ter uma mesa de sinuca em casa e também equipamento de musculação. Ter que me desfazer deles doeu um bocado, mas agora nem sinto mais falta (a mesa de sinuca eu só usava quando tinha visita pra jogar e a estação de musculação foi razoavelmente suprida com a TRX que comentei no teu blog há uns meses atrás).

      Abraço

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  5. AC, já vi essa história com muita gente e em alguns momentos me peguei pensando em ir pelo mesmo caminho. Ainda tenho vontade de morar numa casa com piscina e terreno grande. Churrasqueira é de lei ! Acho que pra mim 120m2 na casa principal já dava. Criar umas galinhas, plantar umas verduras, frutas... uma vida simples, sem ostentação. Será que sai muito caro ?... Bela reflexao, parabens pela sua decisao de fazer o downgrade. Nao deve ter sido facil. Abs

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    1. Vagabundo, se couber no seu orçamento os gastos com empregados e manutenção, dou a maior força. Até cabia no meu, mas eram contraditórios à minha meta de aposentadoria.

      Mesmo com a casa principal "pequena", normalmente o boiler e equipamentos gerais são grandes e, por consequência, a manutenção é maior. Você está mais sujeito a um cano estourar, etc.
      Piscina demanda uma manutenção semanal PELO MENOS. E não é só passar aquela peneirinha como bobo aqui achava; tem que escovar azulejo, botar decantado, cloro, algicida, aspirar, esfregar as bordas, usar as funções da bomba. Se tiver aquecedor pra piscina, mais um item pra manutenção (e pra estourar sua conta de luz).
      Terreno a gente planta, né. No início eu me empolguei, plantei um bando de fruta, verduras e legumes. Se não regar na hora certa cada tipo de alimento, não vinga (tem coisa que é melhor regar no fim do dia, tem coisa que de manhã, tem coisa que não se deve regar todo dia...).
      Galinheiro fede, tem que limpar, faz barulho e a temporada de ovo, pra um galinheiro pequeno, é curta. Normalmente dá pena de matar pra comer a galinha que tu mesmo criou.

      Tem que cortar a grama do terreno a cada 15 dias. Se tiver inclinação, dificulta pois o carrinho não funciona bem, precisa usar a roçadeira. Ambos demandam uma manutenção frequente, gastam gasolina, fora o esforço físico que é bem considerável. Tem que queimar a grama cortada ou dar um destino pra ela.

      Enfim... Duvido que um amigo ou parente te ajude em algo assim. No muito lavam uns 2 pratos depois do churrasco. Pegue uma empreitada dessas só se tiver empregado pra fazer tudo ou prepare-se pra trabalhar algumas boas horas por dia na casa.

      Abraço

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    2. Rapaz, acabou comigo !!! Nao quero morar em apartamento pra sempre, quero verde ! Tem que ter algum jeito. abs

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    3. acho que o jeito é fazer como aqueles aposentados que estão sempre consertando alguma coisa em casa
      simplesmente se cria uma rotina para isso

      abs!

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    4. É isso. Sentir prazer em passar seu tempo cuidando da casa OU ter empregados pra tudo e não se importar com os gastos.
      Quem nunca viveu só ve a beleza de poder nadar peladão na piscina ou comer a cenoura plantada na sua própria horta.
      Abraço

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  6. Aposente Cedo, parabéns pelo relato.

    Tomei acesso ao mesmo através do vídeo que o Escola para Investidores disponibilizou em seu canal no YouTube.

    MENOS É MAIS!

    Sucesso.

    Abraço.

    Mente Investidora
    www.menteinvestidora.org

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    1. Obrigado, Mente Investidora! Bom te ver por aqui. Inscreva seu e-mail no canto superior direito aqui da página para receber novos posts diretamente no e-mail. Livre de spam garantido.

      Abraço

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  7. Que artigo foda!!! Fez eu refletir intensamente sobre as escolhas que venho pensando em adotar pra minha vida. Percebi que estava indo pelo mesmo caminho que vc percorreu e resolvi, a tempo, fazer o caminho de volta antes de me arrepender. Parabéns pela sábia decisão.

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    1. Olá Anônimo, fico feliz que a leitura tenha servido como alerta para te recolocar no caminho do "plano maior". Não existe caminho certo ou melhor, existe o que você deve dar mais prioridade.
      Abraço

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