quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

FIRE solteiro x FIRE casado x FIRE casado e com filhos


Em média, moradia (aluguel + condomínio + IPTU + energia elétrica + gás/aquecimento + água + internet) equivale a 30% da renda de cada um.

Vamos fazer uma simulação entre FIRE solteiro, FIRE casado sem filhos e FIRE casado com 2 filhos, todos com renda mensal de R$ 10.000,00.

O FIRE solteiro e o casado sem filhos pode, tranquilamente, viver num imóvel de 1 quarto, enquanto o FIRE com 2 filhos precisa de, no mínimo, um imóvel de 2 quartos. Supondo que seja uma locação no mesmo prédio/bairro/área:

- Aluguel, condomínio e IPTU 1 quarto: R$ 1.500,00
- Aluguel, condomínio e IPTU 2 quartos: R$ 2.300,00

Imóveis maiores tendem a ter condomínio, IPTU e aluguel maiores.

O valor de internet é o único que não altera; o consumo de energia, gás e água tende a ser 20% maior para cada morador, ou seja, se o FIRE solteiro gasta R$ 500,00 dessas despesas, o casado gasta R$ 600,00 e o casado com 2 filhos gasta R$ 800,00.

Compras de supermercado também tem forte impacto pelo número de pessoas: é presumível que o custo quase dobre a cada pessoa (a alimentação dobra, mas produtos de limpeza não necessariamente); vamos tomar um acréscimo de 80% do custo de mercado. Se o FIRE solteiro gasta R$ 500,00 de mercado sozinho, o FIRE casado gasta R$ 900,00 e o casado com 2 filhos gasta R$ 1.700,00.

Lazer: valor dobra a cada pessoa. Diluindo por mês gastos anuais com transporte (passagens aéreas, etc), cinema, teatro, entradas em geral, restaurantes e hospedagem, se um FIRE solteiro gasta R$ 1.000,00, o casado gasta R$ 2.000,00 e o com 2 filhos gasta R$ 4.000,00. Idem para vestuário e gastos de saúde (plano de saúde e/ou remédios e/ou consultas) - vamos utilizar o mesmo valor base de R$ 1.000,00/mês para facilitar.

Resumindo em tabela de orçamento mensal (beeeeem básica):

FIRE solteiro
FIRE casado
FIRE casado com 2 filhos
Aluguel e encargos
R$ 1.500,00
R$ 1.500,00
R$ 2.300,00
Contas de consumo do lar
R$ 500,00
R$ 600,00
R$ 800,00
Supermercado
R$ 500,00
R$ 900,00
R$ 1.700,00
Lazer
R$ 1.000,00
R$ 2.000,00
R$ 4.000,00
Vestuário + saúde
R$ 1.000,00
R$ 2.000,00
R$ 4.000,00
TOTAL:
R$ 4.500,00
R$ 7.000,00
R$ 12.800,00
Saldo para renda de 10k
R$ 5.500,00
R$ 3.000,00
- R$ 2.800,00 (FIRE insustentável)

A singela simulação acima deixa bem claro que seu planejamento familiar influencia diretamente no seu número mágico para atingir a independência financeira e, consequentemente, a idade com que você poderá se aposentar.

Não se deixe influenciar pelos inúmeros FIREs que anunciam aposentadoria aos 25, 30, 35 anos, etc, e que são solteiros ou não tem filhos. Não compare laranjas com abacates. Muito mais importante que se aposentar cedo é ter uma vida plena e feliz e, se isso significa ter um(a) companheiro(a) e filhos, priorize esta felicidade, certamente muito maior que ter dinheiro.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A regra dos 4% e como pretendo usá-la na aposentadoria


Não quero chover no molhado. Regra dos 4% é gastar 4% do seu patrimônio total existente no dia que você declarou sua aposentadoria e atualizá-lo anualmente pela inflação. Para saber o quanto você precisa para aposentar, pegue seu gasto mensal e multiplique por 300 (ex: gasto mensal é R$ 15.000,00 x 25 = R$ 4.500.000,00 é o valor que você precisa para se aposentar pela regra dos 4%).
Maiores detalhes em:

Como pretendo utilizá-la?

Resumindo, vou tentar dividir a carteira ao meio entre ativos geradores de renda e ativos de acúmulo de capital e tentar viver somente com os ativos geradores de renda, de forma que estarei aplicando a regra dos 4%, mas sem sacar do capital principal histórico da data da aposentadoria.
Parte do patrimônio será alocada em ativos geradores de renda mensal, trimestral ou semestral e irei viver com essa renda; a outra parte será alocado em ativos para acúmulo de ganho de capital de médio e longo prazo.

Exemplo: se eu declarasse FIRE com 3MM para buscar renda mensal de R$ 10.000,00. Desses 3MM,  pretenderia alocar 1,5MM da seguinte forma: 

1M em FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) com dividendos/yield médio de 0,6% (pelo menos) = R$ 12.000,00
250k em Tesouro Direto com cupom semestral médio de IPCA (atualmente 3,27%) + 3,5%, totalizando 6,77% menos IR = 5,7545% ano líquido = 2,87725% semestre = 0,48% líquido mês = R$ 1.200,00
100k imóvel alugado = R$ 600,00 (aluguel atual)
150k (em reais) em REITs (os FIIs dos EUA) com dividendos/yield médio de 0,5% = R$ 750,00
Total de renda mensal: R$ 8.550,00

Ué, e os R$ 1.450,00 que faltam? Caro leitor, preciso contar um segredo: serei FIRE, mas há uma projeção de, durante pelo menos 10 anos, ainda pingar rendimentos de, ao menos, R$ 3.000,00 do meu extinto trabalho. Maiores detalhes ficarão para outro post.
Mas como eu vou fazer quando a fonte secar? Primeiro que pode ser que eu não gaste exatamente os 10k/mês e consiga reinvestir o saldo em mais ativos geradores de renda; segundo, os ativos geradores de renda podem também ter ganho de capital ao longo desse período e, quem sabe, os rendimentos proporcionais poderão superar a inflação e serem suficientes à cobertura da minha despesa mensal estimada.

Os outros 1,5MM da carteira ficarão investidos em ativos para ganhos de capital (ações que não necessariamente pagam dividendos, fundos, imóveis que não geram aluguel, renda fixa e previdência privada).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Ouvindo conselho de quem sabe menos que você


Eu já cometi esse erro e você também. Você abre o Youtube e clica num vídeo com título do tipo “Como ganhei 300% com essa ação” ou “Investindo R$ 10.000,00 no ano de 2020” ou “Skin in the game – aplicando dinheiro ao vivo”. Toca aquela vinheta maneira e começa um vídeo em full HD e aparece um indivíduo bem asseado (pode ser mulher também), com boa dicção, te dando aquela dica quente sobre o papel X ou mostrando ele aplicando alguns reais pela corretora que ele recebe pra fazer merchand. Nada contra, é o trabalho dele. 

O que você talvez nunca tenha se tocado é que ele ganha mais dinheiro com a receita do Youtube (AdSense, merchandise em geral, etc) do que no mercado financeiro; ou que ele/ela só faz vídeo mostrando os trades vitoriosos (quando não são trades hipotéticos!); ou que esse cara ou essa senhorita que você está assistindo tem mais ou menos a sua idade e um patrimônio expressivamente menor que o seu. Por que então você mudaria sua forma de investir e alocar se você tem/ganha mais dinheiro que ele/ela? Só por que ele/ela tem X milhões de inscritos? Um site bacana? Uma corretora famosa por trás?

Reflita.

Há muito conteúdo bom, inclusive de Youtubers famosos, mas reflita bem antes de seguir dicas ou mudar suas ideias com base na opinião alheia.

domingo, 8 de dezembro de 2019

TRAJETÓRIA DO APOSENTE CEDO


O Aposente Cedo (ou simplesmente “AC”, vulgo “eu”) teve sua introdução à vida financeira através de mesada recebida pelos pais. Uma vez por mês, recebia algo equivalente a R$ 30,00 atualmente para comprar figurinhas, algum lanche, presentear alguém ou comprar o que estivesse com vontade. Seu irmão recebia a mesma quantia e, curiosamente, sempre gastava tudo em menos da metade de 1 mês, enquanto o AC conseguia, muitos meses, guardar parte da mesada. Ninguém havia lhe instruído isso, mas parece que já corria em suas veias o ímpeto da independência financeira.

Aos 16 anos, AC iniciou sua vida profissional trabalhando como vendedor em lojas, com salário aproximado de R$ 600,00 na época. Ainda aos 16 anos AC iniciou uma faculdade.

Aos 17 anos, AC trabalhou como promotor de festas e eventos, ganhando média de R$ 500,00 por mês. Ainda aos 17 anos, após prestar novo vestibular, AC iniciou mais uma faculdade.

Aos 18 anos, AC iniciou estágio não-remunerado e tinha uma rotina invejável (com ironia, por favor): de 7:30h às 12:30h – faculdade 1; de 13:30h às 17:30h – estágio; de 18:30h às 22:30h – faculdade 2.

Aos 19 anos, AC iniciou estágio remunerado (ufa!), seguindo sua rotina estafante. No mesmo ano foi convidado a ser efetivado em seu local de estágio (carteira assinada, benefícios e tudo mais, porém com 8h de trabalho por dia) e, após muita reflexão, escolheu priorizar aumentar sua renda (aceitou o emprego) e largou a faculdade 2 exatamente na metade do curso (seu emprego tinha relação direta com a faculdade 1). Salário aproximado de R$ 1.200,00 (já contando os benefícios que sobravam no fim do mês – se ganhava R$ 15/dia de vale-refeição, almoçava onde custava R$ 10,00).

Ainda aos 19 anos, AC iniciou investimento na então Bovespa e CDB de bancão. Fazia trade feito um louco e, naturalmente, perdeu dinheiro feito um louco, mas não parava de treidar.

A vida foi seguindo desta forma e AC foi religiosamente poupando tudo que dava, até que...
Aos 22 anos tinha patrimônio de R$ 6.300,00 e, como presente de formatura, ganhou mais cincão! Com R$ 11.300,00 na conta, pensou, pensou, pensou e... comprou um carro de R$ 11.300,00! Você deve estar se perguntando: por que o cara que já investia em bolsa, lia livro de investimentos, sabia há 6 anos o valor e o suor de cada centavo, raspou o tacho e comprou um bate-bate? Resposta: comer mais gente e ter mais conforto.

Nunca houve arrependimento da compra desse carro e é notável ressaltar que era um carro com 10 anos de uso e cerca de 180.000 km rodados, ou seja, não foi uma atitude de toda estúpida. Após 3 anos de uso intenso do carrinho e algumas batidas, o mesmo foi vendido por R$ 8.000,00 e AC ficou sem carro durante 5 anos.

Voltando à cronologia: aos 23 anos AC pediu demissão da empresa onde foi valorizado com 3 promoções em 3 anos e partiu para um trabalho com salário igual na época (cerca de R$ 2.500,00), porém sem carteira assinada ou benefícios. A razão era adquirir novos conhecimentos. Com 4 meses, AC foi demitido por incompatibilidade de gênio com seu chefe.

Desde os 22 anos, AC já havia começado a pegar alguns serviços “por fora” e, felizmente, quando foi demitido, tinha alguma renda para não passar fome. Pessoa de bom relacionamento com todos à sua volta (exceto com o chefe acima mencionado), AC sempre foi visto como bom profissional e colegas de trabalho da empresa anterior começaram a lhe indicar para um, para outro, que indicava para outro... e AC foi conseguindo aumentar gradativamente seus serviços e decretou que, a partir de então, seria autônomo.
Decisão acertada.
Hoje, aos 33 anos, AC possui sua própria empresa na área e é sócio de uma empresa em outro setor, mas esse detalhamento ficará pra outro post.

Dos 22 ao 25 anos, AC conseguiu guardar 90% de seu salário (e trabalho autônomo) e fez decisões de investimento acertadas na Bovespa, conseguindo reunir patrimônio de R$ 50.000,00 ao final desse período.

Sempre buscando independência em todos os sentidos, AC tinha como prioridade de vida ir morar sozinho. Após muitas buscas e deliberações entre comprar ou alugar um imóvel, decidiu pela compra de uma kitnet de R$ 110.000,00. AC raspara todo seu patrimônio (R$ 50.000,00), mamãe emprestara R$ 40.000,00 e um amigo emprestara (com juros) R$ 20.000,00. Decisão acertada.

A rotina própria (sem interferência da família amada que fazia barulho 24h por dia) permitiu que AC trabalhasse em média 80h por semana em seu próprio lar de magnânimos 20m². É sabido que autônomos, quanto mais trabalham, mais ganham. Em 5 meses, AC quitou a dívida com seu amigo.

Pouco mais de 1 ano de casa própria, AC ouviu fofoca de corredor de prédio que fulano havia vendido seu apartamento por 200 e poucos mil reais. Intrigado, AC pensou: e se eu tentasse vender o meu também? Paguei 110 mil e posso vender por 200 e pouco agora? Será? 3 meses depois, AC estava assinando a venda de seu apartamento por 220 mil reais. Quitou a dívida com sua mãe, pegou o saldo, somou a todo patrimônio que tinha então (27 anos – R$ 120.000,00) e comprou um apartamento um pouco maior (45m²) e precisando de obra GERAL. Pagou R$ 290.000,00. Durante os 3 meses de obra, voltou a morar com mamãe.

Após morar 5 meses no local, AC conseguiu revender o apartamento por R$ 400.000,00. Essa parada tava dando dinheiro.

Ainda aos 27, pegou a grana da venda do apartamento e comprou outro, também precisando de obra geral (60m²). Pagou R$ 490.000,00, utilizando o produto da venda do imóvel anterior e o que tinha economizado até aquele momento (cerca de R$ 130.000,00). Fez obra, foi morar no local e já anunciou a venda. 7 meses depois, vendeu por R$ 650.000,00.

Aos 28 anos, com patrimônio de cerca de R$ 850.000,00 (venda do imóvel anterior + rendimentos acumulados no período), AC estava cansado da vida nômade e comprou imóvel para “se estabelecer” por um tempo. O imóvel que se apaixonou custava quase o total de seu patrimônio (e sabia que não conseguiria revender com lucro como fez com todos os anteriores) e ficou com o dilema: comprar à vista e ficar praticamente zerado ou financiar e tentar vencer o sistema (multiplicar o valor financiado de forma a compensar os juros cobrados pelo banco)? Acertadamente, escolheu a segunda opção.

Com os R$ 560.000,00 que financiou no bancão, AC utilizou essa grana para continuar multiplicando seu patrimônio com transações imobiliárias, mas agora sem precisar ficar se mudando. Com o mercado imobiliário aquecido e seu conhecimento, AC conseguiu identificar boas oportunidades e, felizmente, teve lucros substanciais em sua esmagadora maioria. 

Devido às transações multiplicadoras, a seus rendimentos de trabalho cada vez maiores e sua disciplina em economizar e investir no mercado financeiro (precisando, de tempos em tempos, tirar tudo do mercado financeiro pra aplicar em imóveis), aos 30 anos AC conseguiu multiplicar seu patrimônio.

Seguindo firme nos investimentos imobiliários de compra e revenda e com brutal carga de trabalho de cerca de 80h semanais, AC tinha renda mensal extremamente superior a seu padrão de vida, o que lhe permitia investir quase 80% de seus rendimentos.

Aos 33 anos, AC já poderia ser FIRE se não tivesse constituído família e começou a cansar. Há muito, com seus estudos de investimentos, AC já havia decidido que buscaria independência financeira para que não precisasse mais trabalhar o mais cedo possível. Deparou-se então com a comunidade FIRE (Financial Independence, Retire Early - independência financeira e aposentadoria precoce) e teve certeza de que era isso que queria, absorvendo como esponja conteúdo de inúmeros blogs e youtubers sobre o conceito, especialmente americanos.

Ainda sem o valor-alvo para aposentadoria e sem coragem de chutar o pau da barraca, AC faz cálculos e declara: faltam 12 meses e 23 dias para a aposentadoria.

Fique ligado para acompanhar a trajetória, discutir investimentos e pensamentos sobre FIRE.